40 Anos da Estreia do Van Halen Resenhas

40 Anos da Estreia do Van Halen

16 de agosto de 2018 | Raul Kuk

Avaliação:

Alguns discos são tão bons que marcam a história de uma banda em “antes e depois” dele (como exemplo aqui, podemos pegar o Back in Black do AC/DC ou o auto-intitulado do Metallica). Mas há discos que são tão inspiradores, cheios de vida e brilho próprio, que são capazes de separar a própria música em “antes e depois”. Uma lista com álbuns de rock e metal com esse poder seria bem curta, mas jamais estaria completa sem o debut do Van Halen, lançado quarenta anos atrás.

Claro que, por ocasião de seu lançamento, “Van Halen”, o disco, não foi uma unanimidade – muito pelo contrário. Para alguns críticos, o quarteto não passava de uma “banda de bar”, com letras esquecíveis e postura espalhafatosa. Mas concordavam em uma coisa: Eddie Van Halen.

Os Protagonistas

Em 1978, todos os guitarristas de Hard Rock queriam soar como Jimmy Page, a grande referência do estilo. Eddie expandiu as possibilidades do instrumento, criou um som único e avassalador que tem sido copiado à exaustão e serviu de influência para os mais variados estilos do rock e do metal. Alex Skolnick (Testament), Dimebag Darrel (Pantera) e Kiko Loureiro (Megadeth), entre tantos outros, já renderam suas homenagens ao estilo brilhante de Eddie, aliando uma técnica feroz a um feeling inacreditavelmente cativante.

Isso pra não falar em “Diamond” David Lee Roth, o rock star supremo. Dono da voz (e do palco), tinha carisma e talento suficiente para não ser engolido por Eddie, compondo grandes temas de rock e cantando com o charme e a malícia que os anos 70 tanto gostavam. Muito do direcionamento e visão da banda vinham diretamente de Roth, com sua personalidade forte e visão à frente de seu tempo. Vale lembrar que o mundo da música estava preso entre o punk e a disco em 1978 – e Roth peitava ambos. Suas apostas se mostraram corretas e o Van Halen só crescia. A história começa aqui.

O Álbum

O disco abre com “Running with The Devil”, um cartão de visitas devastador – e não é a faixa mais pesada ou marcante do álbum. É cadenciada, pesada, com as guitarras cortando como lâminas pelo trabalho da cozinha. Alex Van Halen e Michael Anthony dão a solidez que a estrutura da música pede, enquanto os gritos de Dave apenas preparam o caminho para o que está por vir.

É em “Eruption” que tocar guitarra mudou para sempre, da forma mais radical desde Jimi Hendrix. Não é só uma vinheta, não é só um solo. Todo potencial do instrumento é explorado ao limite, com técnica, velocidade, feeling, two-hands, tapping e diversas outras armas do arsenal de Eddie, em 100 segundos de adrenalina. O blues foi deixado de lado e o rock se tornava eletricidade pura, de uma maneira que KissAerosmith jamais conseguiram. Antes que fosse possível recuperar o fôlego, os primeiros acordes de “You Really Got Me”, cover do Kinks, atropela o ouvinte com fúria e tesão. Muito superior ao original. O álbum segue incansável.

“Ain’t Talking ‘Bout Love” é um resumo em três minutos de tudo que o Van Halen representa. Refrões, coro, letra, guitarra… Tudo na medida para elevar a temperatura em arenas ao redor do mundo todo. Sem deixar a bola cair, a banda ainda vem com “I’m the One” – tudo que o Mötley Crüe tentou ser em seu primeiro álbum. Rápida, pesada e maliciosa, mostrando a química perfeita entre seus integrantes e uma capacidade criativa aparentemente inesgotável – além de uma profundidade sombria e melancólica na letra.

E isso é só a primeira metade do álbum.

Partimos para o lado B com o freio de mão puxado em “Jamie’s Cryin'”, uma batida mais pop mas igualmente divertida. É “Atomic Punk” que nos traz de volta a guitarra cortante de Eddie sendo usada de maneira criativa para os vocais de Dave brilharem: “nobody rules the streets at night like ME!” “Feel Your Love Tonight” volta a apresentar uma pegada mais pop, com “Little Dreamer” na sequência. As coisas voltam a esquentar com a divertídissima cover de John Brim para “Ice Cream Man”. Impressionante como uma música tão boba cai tão bem na voz de Dave, que faz dela uma festa completa.

A bolacha fecha com “On Fire”, onde o peso e a velocidade ditam as regras mais uma vez, com Eddie, Alex, Mike e Dave entregando três minutos de rock raivoso e passional.

O Veredicto

Poucos álbuns de estreia tiveram um impacto tão grande na indústria – este só foi superado pelo “Appetite for Destruction”, dez anos depois – mas a marca que ele deixou entre fãs de rock e metal é indelével. Na época, o Van Halen fazia a abertura dos shows de um decadente Black Sabbath, roubando o público todas as noites antes que Ozzy subisse ao palco para ficar à sombra de Tony Iommi. Tendo vendido mais de dez milhões de cópias, o disco teve todas as suas músicas tocadas na turnê de reunião com David Lee Roth, uma prova de sua qualidade atemporal. Ainda que em um fim de carreira melancólico, o lugar da banda está reservado entre os grandes nomes da história do rock e Eddie e Dave, a despeito de sua rivalidade e das palavras ásperas que foram trocadas por décadas, seguem como uma das duplas que foi capaz de sacudir o rock e lhe dar sangue novo, redefinindo as regras do jogo e garantindo uma vitalidade renovada. Não é nada menos que essencial.

Van Halen
Produzido por Ted Templeman

Michael Anthony – baixo, backing vocals
David Lee Roth – vocal, violão em “Ice Cream Man”
Eddie Van Halen – guitarra, backing vocals
Alex Van Halen – bateria

Raul Kuk

Raul Kuk

Escritor de coisas, degustador de quadrinhos, sommelier de cinema, comensal de música. Um Time Lord de 400 anos, é pai de uma pequena e encantadora khaleesi.

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