Bruce Dickinson “Pra que Serve Esse Botão?” Resenhas

Bruce Dickinson “Pra que Serve Esse Botão?”

9 de agosto de 2018 | Raul Kuk

Avaliação:

En garde!

O agora sexagenário Bruce Dickinson atingiu um status na carreira que lhe permite dispensar algumas formalidades. Sabemos em que banda ele construiu sua carreira e, em algum ponto da vida, não há quem não tenha pensado “ele não cansa?” São quarenta anos gravando e excursionando, quase noventa milhões de discos vendidos, turnês que o levaram aos cinco continentes e um talento descomunal para aprender, desbravar e conquistar. Um verdadeiro homem da renascença nos dias de hoje, Dickinson já foi de piloto e mestre cervejeiro a esgrimista e escritor – e não há sinais de que ele vá parar de nos surpreender tão cedo.

Sua autobiografia (“Para que serve esse botão?” – What Does this Button Do?, lançado em 2017 pela HarperCollins e, no Brasil, pela Editora Intrinseca em 2018) nos ajuda a entender sua trajetória, suas escolhas e até mesmo sua luta pela sobrevivência. Sempre discreto (como todos os outros integrantes da banda, aliás), Dickinson se compromete, logo nas primeiras páginas a não falar de casamentos, divórcios e nascimentos – seus ou de outras pessoas. Coerente e fiel a seus princípios, por diversas vezes ele criticou o comportamento de rock stars que transformam sua vida privada em algo mais interessante do que suas próprias carreiras. O que temos aqui, na verdade, é a construção de um ícone do rock e do heavy metal, a música em sua vida e sua vida em… Bom, basicamente, em tudo que ele conseguiu colocar as mãos (e todos os seus motivos para isso).

São muitos motivos… O nº666 vai deixar você perplecto!

O livro

Dickinson revisita sua infância com os avós e, posteriormente, com seus pais. Foi nesse período que começou seu interesse por aviação e seu temperamento, às vezes explosivo e passional, em outras, analítico e pragmático, o colocou e tirou de problemas na escola e no exército. Suas primeiras escolhas na música, as primeiras bandas, a bebedeira que o fez passar vergonha na frente de seu ídolo Ian Gillan, a formação de seu estilo vocal e a oportunidade de cantar no Iron Maiden, que ele agarrou com unhas e dentes, mostram diversos lados de sua personalidade que nos ajudam a entender melhor o homem por trás da lenda. Ainda que discreto ao falar de sua vida pessoal, ele não deixa de expressar gratidão e até uma certa nostalgia por pessoas e momentos que o conduziram ao estrelato.

Isso parece deixar algumas “lacunas” no livro, como se algumas coisas estivessem acontecendo rápido demais e ele estivesse lidando sozinho com todas as consequências. Por outro lado, a leitura fica monótona quando ele passa a dar detalhes de alguns de seus voos e da arte da esgrima. Algumas explicações acabam sendo bem técnicas e podem entediar os leigos no assunto (como eu, por exemplo). Quando ele fala de música, porém, temos um retrato dos bastidores de uma das maiores bandas da história difícil de se encontrar mesmo nos vídeos oficiais.

Fascinante mesmo é sua descrição do “teatro da mente”, um método que ele aperfeiçoou para conseguir visualizar seus objetivos e colocás-lo em prática. Apenas isso já vale a leitura – e um livro por si só. Cada passo de sua carreira, nos palcos e fora deles, foi estudada e planejada para não falhar contanto que a dose necessária de esforço fosse empregada. É algo que podemos aprender e levar para quaisquer campos da vida que possamos imaginar. Vencer se torna, além de foco e dedicação, uma questão de visão.

Admito que a passagem sobre como ele deu a notícia de que ia sair do Iron Maiden me decepcionou. Isso foi algo que, como fã, sempre quis saber. Qual foi a reação dos demais, se houve algum tipo de discussão acalorada, com direito a acusações, ofensas gratuitas, ataques e um ou outro dedo na cara. Não teve nada disso. Não vou dar spoilers aqui, mas o Maiden é uma empresa gigantesca e todas as grandes decisões são tomadas da maneira mais profissional possível.

Não podemos deixar de citar o empreendedorismo de Dickinson, que se tornou um homem de negócios e hoje dá palestras ao redor do mundo para falar de suas experiências no mundo corporativo. Merece nota também o capítulo sobre sua viagem a Sarajevo, para fazer um show em uma cidade devastada pela guerra (esse fato em particular virou o documentário “Scream For Me Sarajevo”, já disponível) e sua luta contra o câncer, vencendo prognósticos, desafiando a medicina e mostrando que sua força de vontade férrea (com o perdão do trocadilho) não apenas definiu o frontman, mas também foi capaz de lhe fazer lutar da mesma forma com que sempre sobe aos palcos: o olhar confiante, a dedicação, certo de que fará o seu melhor e não vai ser derrotado sem luta.

Depois de usar essas roupas na frente de milhares de pessoas, qualquer coisa fica parecendo fácil.

Touché!

No geral, temos uma abordagem bem honesta, com alguns excessos, risadas e lágrimas bem dosados. É surpreendente o quanto ele se sente confortável com tudo que faz: compôr, gravar, cantar ao vivo, escrever, filmar, esgrimir, pilotar, administrar… Ele parece atingir a excelência em tudo que se propõe. É um choque, então, que após ter escrito dois livros, um roteiro de cinema e algumas das letras das músicas mais importantes do metal, sua autobiografia não pareça ter um foco definido. Em alguns momentos, ela fala aos fãs de metal e do Maiden mas, em outros, ela parece ser direcionada aos fãs de aviação (e ainda em alguns, aos fãs de esgrima). Sua vida e sua obra mereciam um relato um pouco mais coeso.

Mas talvez seja assim que funcione a cabeça de alguém que se envolve em tantas atividades ao mesmo tempo.

Raul Kuk

Raul Kuk

Escritor de coisas, degustador de quadrinhos, sommelier de cinema, comensal de música. Um Time Lord de 400 anos, é pai de uma pequena e encantadora khaleesi.

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