As musas de “Aégis”, do Theatre of Tragedy Resenhas

As musas de “Aégis”, do Theatre of Tragedy

6 de agosto de 2018 | Monique Monteiro

Avaliação:

Na década de 1990, na Noruega, nasceu o Theatre of Tragedy que, com o The 3rd and the Mortal e o Tristania, é uma das bandas fundadoras do gênero “A Bela e a Fera” dentro do Gothic Metal, ou seja, vocal gutural masculino associado a vocais suaves ou líricos femininos. Seus dois primeiros álbuns, Theatre of Tragedy (1995) e Velvet Darkness They Fear (1996), tem presença marcada de piano, vocais guturais de Raymond Rohonyi e a presença discreta Liv Kristine. O terceiro álbum, Aégis, de 1998, apresenta uma proposta um pouco diferente dos álbuns anteriores: os vocais de Raymond ficam mais suaves, sussurrados, e há predomínio da belíssima e angelical voz de Liv, a sonoridade é mais atmosférica, as guitarras e a bateria são marcadas pela forte influência de bandas como The Sisters of Mercy e The Mission. Raymond, Liv e cia beberam nas fontes do Gothic Rock de finais da década de 1970 e que explodiu em 1980. As letras, em Inglês Antigo, continuam com o toque poético característico, shakespeariano, e perdem o tom de elegia que marcou os dois primeiros, adquirindo um tom de ode. Aégis é totalmente dedicado a mulheres de algumas culturas (apenas europeias, infelizmente), tanto históricas, como Popeia Sabina, quanto mitológicas e folclóricas, como Cassandra e Lorelei – ou grupos de mulheres, como Siren e Bacchante.

Ægis, do Grego “Αιγίς”, Égide, o escudo mágico de Zeus, forjado por Hefesto, Deus da metalurgia, do fogo e do artesanato, criador da primeira mulher mortal, Pandora, e marido de Afrodite, que o abandonou por ser coxo. Diz a cosmogonia Grega que Zeus, filho mais novo dos titãs Cronos e Reia, usou a Égide para combater os Titãs e afirmar a soberania dos Deuses Olímpicos. Em sua parte frontal, havia uma Górgona em relevo (eram três as Górgonas, das quais Medusa é a mais famosa – e única mortal – e suas irmãs Esteno e Euríale, e todas possuíam o poder de transformar em pedra quem olhasse em seus olhos). Na Égide de Zeus, essa Górgona tinha o objetivo de amedrontar o inimigo. E é na Grécia pré-cristã que Raymond e Liv buscaram inspiração para Aégis.

 

Cassandra

Na religião pré-cristã da Grécia Antiga, era uma dos dezenove filhos do rei Príamo e da rainha Hécuba de Troia, irmã de Heitor e Páris, gêmea de Heleno. Seu mito conta que, quando crianças, Cassandra e Heleno foram brincar no templo de Apolo, e lá passaram a noite. Sua ama, ao chegar ao templo pela manhã para buscá-los, encontra serpentes lambendo-lhes as orelhas. Assim, os gêmeos passaram a ouvir a voz dos Deuses – a sacerdotisa do templo de Apolo era Pítia, ou Pitonisa, cujo nome deriva de Pytho, “serpente” em grego (Πυθία). Cassandra cresce, se torna uma jovem de incrível beleza e devota de Apolo, que se apaixona por ela e lhe ensina os segredos da profecia. Ela nega-se a deitar-se com Apolo, e ele a amaldiçoa: ninguém jamais acreditaria em suas profecias. Cassandra prevê a destruição de Troia, por Ulisses, após o sequestro da espartana Helena, mas ninguém acredita em suas profecias, e é tida como louca.

 

Prophetess or fond?
Tho’ her parle of truth
“I can tomorrow – refell me if ye can!”
Yet the kiss and breath Apollo’s bane
Sëer of the future, not of twain
«Sicker!», quoth Cassandra

 

 

Lorelei

Lorelei é, no mito germânico, uma sereia, um espírito da água, que atraía e encantava os marinheiros com sua beleza e sua voz. Sua lenda surgiu de um rochedo localizado no rio Reno, que produz um som murmurante quando da passagem de ventos pelo seu interior, daí seu nome: lureln, “murmúrio” em alemão e ley, palavra celta para “pedra”.

Na balada Zu Bacharach am Rheine, de Clemens Bretano, a bela Lore Lay é traída por seu amado, passa a enfeitiçar homens e leva-los à morte. Condenada por isso, é obrigada a abraçar a vida monástica. Lore Lay pede para subir uma vez mais a rocha para olhar o Reno uma última vez, acredita ver seu amado e de lá se arremessa. É dito que Bretano se inspirou no Mito Grego de Echo.

“Lorelei” é uma referência constante nas artes: é o nome de uma poema de Sylvia Plath, tema no 3º movimento da 14ª Sinfonia de do compositor Dmítriy Shostakóvich – a música é uma das artes que mais evoca a personagem de Lorelai – e também nos quadrinhos, em que é uma vilã asgardiana da Marvel.

 

Lorelei,
A poet of tragedies, scribe I lauds to Death,
Yet who the hell was I to dare?
Lorelei,
Canst thou not see thou to me needful art?
Canst thou not see the loss of loe painful is?

 

Angelique

No poema épico italiano Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto, que data aproximadamente do século 16, Angelica é uma princesa pagã que revira a mente de Orlando (ou Rolando, em inglês e francês). A história se passa na corte do rei dos francos, lombardos e, posteriormente, do Sacro Império Romano Germânico, Carlos Magno (ca. 724 – 814 EC) durante a guerra entre o imperador Carlos Magno e do rei Agramante, dos Sarracenos.

Orlando é o mais famoso dos paladinos de Carlos Magno, e se apaixona pela princesa pagã Angelica, chegando a cogitar abandonar o exército do rei. Angelica foge do castelo do rei bávaro Duke Namo. Angelica é ferida por um cavaleiro do exército Sarraceno, Medoro, e foge com ele para Cathay (China, para os mais íntimos). Orlando descobre e, furioso, percorre a Europa e a África destruindo tudo em seu caminho. Ao ver a fúria de Orlando, Astolfo, um companheiro do exército inglês, foge para a Etiópia em um hipogrifo, em busca da cura para a loucura de Orlando. Em seguida, voa para a Lua numa carruagem de fogo e, na volta, traz uma garrafa contendo a sanidade de Orlando (é dito, no poema, que na Lua estão todas as coisas que se perdem na Terra). Com a sanidade de volta, Orlando deixa de amar Angelica, pois o amor também é uma forma de insanidade.

O poema de Ludovico data de, aproximadamente, 1516 e é considerado um dos elementos culturais mais importantes da Europa, e sua influência permanece até os dias atuais. Serviu como base para Shakespeare em Muito barulho por nada. Orlando “faz uma ponta” no romance Rob Roy (1817), de Sir Walter Scott. O amigo de Orlando, Ariosto, aparece em dois romances de Italo Calvino, O cavaleiro inexistente e n’O castelo dos destinos cruzados. Jorge Luis Borges, escritor e professor de Literatura Inglesa em Buenos Aires, também escreveu um poema sobre a figura de Ariosto, Ariosto y los árabes, em que explora a conexão entre o épico italiano e a compilação de contos folclóricos As mil e uma noites – infelizmente sem tradução no Brasil. Além da influência na literatura, Orlando Furioso marca presença na música – Vivaldi e Handel compuseram óperas baseadas no épico – e na pintura – Eugène Delacroix e Gustave Doré.

 

Thou dawdl’d not bringing me fro Æther to Nether
Still duringly cling I on to, to this heather
Dew-scentéd blossom, thou wast pristine
The sweven of thee ne’er will I cede, my colleen

 

Aœde

Aœde (Ἀοιδή), é uma das três Musas originais na religião pagã da Grécia Antiga. Filha de Zeus com a Deusa da memória, Mnemosyne, irmã de Melete (Musa do Pensamento) e Mneme (Musa da Memória, como sua mãe). Aœde é a Musa da Música e da Voz, que foi substituída, posteriormente, por Euterpe. As Musas eram Deusas que inspiravam as pessoas – o nome Musa (Μοῦσαι), significa “arte”, “poesia”, e daí vem Museu, local de culto às Musas – e os gregos antigos tinham Musas para todo o tipo de atividade que necessitasse de inspiração: Clio, a Musa da História (naquele período, a História não tinha um método historiográfico, não havia a pesquisa, portanto a inspiração era necessária); Callíope, Musa da Poesia Épica; Melpomene, da Tragédia; Terpsichore, Musa da Dança; Urania, Musa da Astronomia; Thalia, Musa da Comédia (nada a ver com a novela Maria do Bairro, ok?), etc.

 

With dulcet gust thine floret,
Which I yet would not do –
Pray I thee for thine avail –
Lave me in it; I want more!

 

Siren

Sereias estão presentes no folclore de diversos países. Diferente do que a Disney retratou em A Pequena Sereia, elas são criaturas perigosas, que encantam marinheiros com suas belas vozes para matá-los e naufragar seus navios. Em geral, elas aparecem próximas à ilhas montanhosas e pedregosas – como na lenda de Lorelai – o que explica o náufrago dos navios: o som do vento passando entre as rochas produz um som que parece um canto muito bonito. Seria Liv Kristine uma sereia? :}

 

I speer thine pine, – (Thine voice is oh so sweet)
Ryking for thee – (Ryking for me)
Wistful, whistful – («List and heed», thou say’st)
Chancing to lure – (Chancing to lure)
Skirl and skreigh, but for thine ears, aye, lown ‘tis
Dodge na ‘way herefro, do come here in eath!

 

Vídeo não oficial de Siren, gravado no festival Metal Female Voices, Bélgica em 2016.

 

Venus

Venus, Deusa Romana da beleza, do amor e do sexo, contraparte da Afrodite grega. Diferente das outras músicas do álbum, Venus é cantada em Latim e Inglês Antigo. As partes em Latim pertencem aos poemas satíricos e eróticos conhecidos como Carmina Burana (dos quais 24 poemas fazem parte da cantata do compositor alemão Carl Orff). Os refrões são em Inglês Moderno, e contam a história de uma pessoa, presumivelmente um homem, que evoca Venus, mas é por ela enganado – em vez de ajudá-lo, carrega a tragédia para a vida de seu adorador.

 

Venus – I trow’d thou wast my friend
Venus – Professed to Heaven thou wouldst send
Heaven thou wouldst send
As disciple of a villain
Didst thou act the tragedienne.

 

Vídeo não oficial de Venus, gravado na Bélgica, no festival Metal Female Voices, em 2016.

 

Poppæa

Popeia Sabina foi a segunda esposa do imperador Nero que, segundo o historiador Tacito, era ambiciosa e influenciou Nero a matar sua mãe, Agripina. Popeia é cercada de controvérsias, de acordo com os interesses de cada historiador do período: Flávio Josefo, hebreu, sugeriu que Popeia fosse judia em segredo e profundamente religiosa, o que pode ter sido um grave “defeito” para os cidadãos romanos do período, porque ela influenciava Nero a ser mais misericordioso com o povo hebreu.

 

Dream of a funeral, blest temptress, behest me
A funeral thou’lt hark, swarth murderess, the Devil,
Thine feral grith with me, Poppæa, be Hell’s hap
Waylaid the beldame bawd, the niggard: Laughing tragedy

 

Bacchante

Bacante (Βάκχαι) é uma sacerdotisa do culto a Dioniso/Baco nas religiões pré-cristãs da Grécia e de Roma. De acordo com Eurípedes, dramaturgo da Antiga Grécia, as Bacantes eram mulheres más, selvagens, lascivas, se vestiam de linho e traziam uma serpente à cintura. Ostentavam a insígnia de Tirso – um bastão envolto em hera e ramos de videira, encimado por uma pinha, claramente de caráter fálico – símbolo de que eram seguidoras de Dioniso. Estão presentes, também, no mito de Orfeu: ao serem por ele desprezadas, atiram dardos e gritam, para abafar o som de sua lira, matando-o, em seguida despedaçam seu corpo e o jogam no rio Hebro.

Na Grécia, seus festivais eram chamados de Dionysia, mas é em Roma, para onde esse culto se estendeu, que essas celebrações ganham um nome conhecido por aqui: Bacchanalia, ou Bacanal, e o Carnaval moderno é herdeiro direto dessa e de mais duas comemorações do mundo antigo – a Saturnália, a Lupercália. Bacana, né? Rs.

Bacchante fecha o álbum de forma magistral (algumas versões posteriores de Aégis possuem duas faixas bônus, “Samantha” e “Virago”). Tem um refrão que, apesar de se resumir à repetição da palavra “celebration”, é frenético e hipnótico – uma festa dionisíaca, selvagem, regada a vinho, com as ninfas Bacantes a dançar enlouquecidamente ao redor de uma fogueira.

 

Onto the paper scribe I the words that fro my heart move
With every dight letter, with the ebb of ink
The point of the quill my penmanship doth mirror
Tales of theft and adultery, tales of devilment and witchery, tales of me

Celebration!

 

Monique Monteiro

Monique Monteiro

Historiadora aficcionada por História tardo-antiga e medieval. Adora cinema de horror, Tolkien, Lovecraft, Edgar Allan Poe e Arquivo X. Não consegue ficar sem música e brinca com todos os gatos que encontra.

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