Os 35 anos de “Piece of Mind” – Iron Maiden Resenhas

Os 35 anos de “Piece of Mind” – Iron Maiden

13 de junho de 2018 | Raul Kuk

Avaliação:

Quem ouve a sequência de grandes álbuns que deu início à carreira do Iron Maiden, certamente não consegue ter a dimensão exata dos percalços que a banda enfrentou. Os quatro primeiros discos foram gravados cada um com uma formação diferente – durante a turnê do terceiro álbum, o clássico Number of the Beast, a banda sofreu mais uma baixa: o baterista Clive Burr foi substituído por Nicko McBrain (em Number of the Beast, foi o vocalista Bruce Dickinson que fez sua estreia e, em Killers, o guitarrista Adrian Smith).

Pra qualquer banda, isso significaria perda de qualidade, ou mesmo da identidade musical. Fica difícil manter um padrão com tantas alterações seguidas. No caso do Maiden, porém, eles conseguiram usar isso como combustível pra lançar discos cada vez mais impressionantes, sempre superando o anterior – e, ainda que para muitos fãs, Number of the Beast seja o melhor álbum, Piece of Mind representa mais um passo adiante, sem sombra de dúvida.

No estúdio

A produção, novamente a cargo do lendário Martin Birch, supera a dos discos anteriores. Cada vez mais à vontade e seguros no estúdio, os integrantes da banda sempre falaram a mesma língua que Birch, que conseguia tirar o melhor de cada um deles. O resultado é um som cristalino, que não perde o peso e a intensidade. Não restam dúvidas de que Birch era o sexto integrante da banda – e não o tecladista Michael Kenney.

Faixa a faixa

Musicalmente, Piece of Mind contém algumas preciosidades subestimadas ao lado de grandes clássicos. O lado A é uma porrada incansável. Abre com “Where Eagles Dare”, baseada no filme de 1968 estrelando Clint Eastwood (lançado no Brasil como “O Desafio das Águias”). Com grandes seções instrumentais, seu maior destaque é a introdução de McBrain, seu cartão de visitas para todos os fãs do Maiden. Em seguida, a espetacular “Revelations”, escrita por Dickinson. Mais calma durante os trechos em que ele canta e com peso e velocidade nos intervalos das estrofes, “Revelations” é uma das grandes composições da história do heavy metal, com sua letra brilhante e profunda parafraseando o hino de G.K, Chesterton O God of Earth and Altar e com diversas referências a Aleister Crowley. Na sequência, uma de minhas favoritas do Maiden, “Flight of Icarus”. Escrita por Dickinson e pelo guitarrista Adrian Smith, reconta o mito grego do homem que construiu asas para que ele e seu filho pudessem fugir do labirinto de Creta – e da tragédia que se seguiu.

Steve Harris nunca gostou dessa música” – declarou Dickinson na biografia da banda. “Ele a achava lenta demais, mas ela tinha o exato ritmo que eu queria e sabia que ela ia se sair bem nas rádios americanas”. O vocalista estava certo: ela chegou ao 12º lugar nos Estados Unidos.

As três primeiras músicas passam muito rápido e tiram o fôlego de qualquer um. Mas não param por aí: a próxima música é “Die With Your Boots On”, uma porrada com refrões empolgantes tipicamente “levanta-plateia” do Maiden. O título é uma expressão que quer dizer algo como “morrer lutando” e, apesar de ter ficado no set-list da banda por alguns anos, acabou esquecida.

Na sequência, temos um dos grandes clássicos do Maiden: “The Trooper”. Inspirada no poema The Charge of the Light Brigade, do barão Alfred Tennyson, tornou-se obrigatória nos shows e uma das marcas registradas da banda. É impossível ficar indiferente ao coro entre os versos, aos solos e melodias, ao peso e velocidade. Poucas músicas resumem tão bem o que é o heavy metal quanto “The Trooper”.

O lado B do disco é cheio de grandes músicas que, se não chegaram à categoria de “clássicos”, merecem lugar de destaque dentro das composições do Maiden. A primeira é “Still Life”, inspirada pela história curta de horror The Inhabitant of the Lake, do renomado autor Ramsey Campbell. Sua introdução sussurrada dá lugar a pesadelos e delírios, com muita agressividade. Em seguida, a polêmica “Quest for fire”, que tem o duvidoso título de “pior música do Maiden”. Ela está longe de ser essa desgraceira toda, mas realmente é o ponto baixo do álbum, com sua letra baseada no filme de mesmo nome lançado em 1981.

O álbum termina com “Sun and Steel”, com riffs muito criativos e letra baseada na história do lendário samurai Miyamoto Musashi. Finalmente, “To Tame a Land”, um épico típico do Maiden fecha o disco, com sua letra baseada no clássico romance Duna, de Frank Herbert, vocais imponentes e arranjos primorosos.

O veredito

Mesmo depois de tanto tempo, o álbum soa coeso, maduro e vigoroso, marcando (mais um capítulo d)a ascensão do Maiden. O que eles mostram em Piece of Mind é a determinação férrea (sem trocadilho) que os levou a ocupar o posto de maior banda de heavy metal da história. Este era o ponto em que qualquer banda quebraria, em troca de composições mais acessíveis, turnês mais longas (e com mais folgas) e mudanças drásticas no som e no visual. Mas não o Maiden. Harris se manteve firme em sua visão do que a banda representava e qual caminho deveria seguir, acompanhado – finalmente – por um séquito de músicos brilhantes que partilhavam de sua visão. O próximo capítulo desta história seria escrito pela mesma formação da banda – algo inédito para eles – mas que serviria para coroar seu status.

Essa, porém, é outra história.

Originalmente lançado em 16 de maio de 1983, Piece of Mind foi produzido por Martin Birch

  • Bruce Dickinson– vocal
  • Dave Murray – guitarra
  • Adrian Smith – guitarra
  • Steve Harris – baixo
  • Nicko McBrain – bateria
Raul Kuk

Raul Kuk

Escritor de coisas, degustador de quadrinhos, sommelier de cinema, comensal de música. Um Time Lord de 400 anos, é pai de uma pequena e encantadora khaleesi.

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