Ghost “Prequelle” Resenhas

Ghost “Prequelle”

4 de junho de 2018 | Monique Monteiro

Avaliação:

Quando o Ghost surgiu, em 2010, foi um hype enorme: seis caras mascarados, completamente paramentados, um como um Papa decrépito e os outros cinco com capas pretas com capuzes e máscaras. O debut Opus Eponymous foi um sucesso, e a fórmula que engloba o visual macabro associado ao som que remete ao rock dos anos 1970 e 1980 fez um sucesso estrondoso (ok, não tanto no Brasil, onde o público achou que o som não era satânico o suficiente). As nove músicas de Opus Eponymous (algo como “auto-entitulado”) contam a história da vinda do Anticristo para salvar a Terra da palavra de um Deus essencialmente mau, um Demiurgo, e sua igreja corrupta. O emissário de Satanás, Papa Emeritus I, vem para preparar a Terra para a chegada do filho de Lúcifer, o Anticristo em pessoa. A história se passa numa Idade Média dominada pela palavra desse Deus. Realiza-se um ritual (“Ritual”), em que a semente do anticristo é “plantada” em uma jovem virgem inocente (mas claro, né?). O Anticristo é concebido (“Prime Mover”) e tem início a Nova Era (“Genesis”). Algumas versões desse álbum tem a cover de “Here Comes the Sun”, dos Beatles, um dos ótimos trocadilhos do Ghost.

Em seu segundo álbum, Infestissumam (“hostil”, em latim), o Anticristo já está entre nós. É o Ano Zero (“Year Zero”). O Papa Emeritus I foi substituído pelo Papa Emeritus II, que é um galanteador, e uma das mensagens de Infestissumam é para os homens, como eles tratam as mulheres e se apoiam na “palavra de Deus”.

I am the one who preys on weak,
I offer everything they seek,
and I am the one who comes richly endowed,
harvesting crops of fields that others have plowed.

[Jigolo Har Megiddo]

Meliora (busca por algo maior/melhor), o terceiro álbum, trata da ausência de Deus (“Deus In Absentia”). A humanidade continua se afogando na sua cegueira, no vazio, em religiões que falam o que os fieis desejam ouvir, sem oferecer algo realmente espiritual em troca (“Cirice”), ganância (“Mummy Dust”) e fundamentalismo (“Majesty”). “He Is” é um hino para o Portador da Luz, e foi inspirada no suicídio de Selim Lemouche, guitarrista e compositor da banda The Devil’s Blood. “Deus In Absentia” fala que ou Deus nos abandonou por completo porque somos uns imbecis que não conseguimos aprender nada, ou ele nunca realmente existiu. A humanidade, perdida, segue sem rumo, para uma nova Idade Média.

E é aqui que entra Prequelle. Em meio aos gritos de “Papa”, fomos apresentados ao Papa Emeritus Zero/Papa Nihil, que avisou que a Idade Média havia começado. Mas, em uma conversinha entre o Papa Zero e a Irmã Imperator, fomos apresentados ao jovem Cardinal Copia. Mas quem é ele e qual o seu papel? Forge afirmou que o Cardinal Copia pode se tornar Papa. Ele precisa aprender com o Papa Nihil para merecer sua pintura de caveira.

Voltando ao álbum, Prequelle é focado na morte e na Idade Média. A primeira faixa, a tenebrosa “Ashes”, tem um coro de meninas cantando “Ring Around the Rosie”, canção popular europeia que, de acordo com alguns folcloristas, fala sobre a epidemia de Peste Bubônica que devastou a Europa e parte da Ásia entre 1347 e 1351 (essa teoria é controversa, e a canção pode ser mais antiga que isso, datando do período pré-cristão). Não é, em minha opinião, uma das melhores aberturas do Ghost (“Infestissumam” é mais épica, por exemplo), mas é boa e combina bastante com a intenção temática do álbum, que é trazer um som mais retrô, com forte presença de sintetizadores. Voltando à Peste Bubônica, assunto que permeia Prequelle, a bactéria que causou essa epidemia é transmitida para os humanos pelas pulgas de… ratos.

This devastation left your cities to be burnt / Never to return / Never to return.

[Rats]

O primeiro single de Prequelle, “Rats”, não fala exatamente sobre os ratos que transmitem a doença, segundo Forge, mas sobre algo que infesta tudo de forma muito rápida. A canção é animada, dançante, gruda na cabeça e o lyric video traz referências à Thriller, do Michael Jackson, e ao filme Cantando na Chuva, com o Cardinal Copia mostrando seus dotes de bailarino.

Seguida de “Faith”, uma das faixas mais potentes do álbum, que remete à Opeth, em especial nas primeiras notas. O solo lembra o peso de Meliora, e nela o Diabo está de volta, observando a destruição causada pela epidemia de Peste Bubônica.

I am all eyes / I am all ears / I am the wall / And I’m watching you fall.

[Faith]

“See the Light”, a quarta faixa, é a mais pesada do álbum. Nada de dançante, nada de disco. A letra ambígua pode ser mensagem para os quatro Ghouls que processaram Tobias no final de 2017, mas o segundo refrão, que diz “Drink me, eat me / Then you’ll see the light”, remete à cerimônia de eucaristia da Igreja Católica, em que os fieis bebem o sangue de Cristo (vinho) e comem sua carne (hóstia), para se redimirem de seus pecados. Também pode indicar que Tobias está certo, e os ex-Ghouls precisam enxergar isso. O refrão de “See the Light” é pesado, potente e passa uma mensagem bastante precisa: vocês me alimentam de ódio, e com isso eu fico mais forte. Beijinho no ombro.

Many a rat I have befriended
And so many a thorn stood between
But of all the demons I’ve known
None could compare to you

Every day that you feed me with hate
I grow stronger!

[See the Light]

“Miasma” conta com a participação de Kenny G! Brincadeiras à parte, “Miasma” é um dos melhores interlúdios que o Ghost já criou. Uma referência à Teoria Miasmática, de que toda doença tem origem em miasmas, ou seja, gases da putrefação provenientes do solo, em uma ambientação oitentista, com sintetizadores e um solo de sax. Pra mim, o que mais chamou a atenção aqui (além do sax, claro), é a excelente linha de bateria, e essa é, definitivamente, uma das melhores que já ouvi. Infelizmente, não sei qual Ghoul parabenizar nesse caso.

“Dance Macabre” é uma daquelas baladinhas oitentistas em que o casal do filme se encontra na pista de dança no clímax do filme. O problema é que essa pista de dança são as “ruas” medievais cheias de doentes, com suas valas infestadas por mortos – de  onde se originam as alegorias artísticas chamadas de Danse Macabre. O refrão, se você não prestar atenção, vai entender outra coisa e, na moral? O Tobias Forge é um gênio.

Just wanna be
Wanna bewitch you in the moonlight

It keeps on giving me chills
But I know now
I feel the closer we get
To the last vow.

[Dance Macabre]

A morte iminente, única certeza que temos, não deve ser temida. Essa é a mensagem de “Pro Memoria”, uma balada à morte e… à Lúcifer. Seus amigos irão morrer, sua família irá morrer, e você também. “Don’t you forget that you will die”.
A imagem que vem à sua mente quando se fala em Idade Média é, com toda certeza, bruxas e a Inquisição. Numa busca rápida pelo Google, encontramos xilogravuras da Peste Bubônica em que bruxas dançam sua dança macabra com demônios entre os corpos dos que morreram. O refrão faz referência à pintura do artista holandês Jerônimo Bosch, “O Jardim das Delícias Terrenas”.

While you sleep in earthly delight
Someone’s flesh is rotting tonight
Like no other to you…

[Pro Memoria]

“Helvetesfönster” (“janela do inferno”), o segundo interlúdio de Prequelle, conta com a participação de Mikael Åkerfeldt (Opeth/Storm Corrosion, ex-Bloodbath) no violão. “Helvetesfönster” era uma espécie de avental que as mulheres usavam, na Idade Média, com aberturas nas laterais, ou seja, não tinham mangas. Os homens podiam dar uma espiadinha nos seios femininos, e por isso eles eram uma janela para o inferno – essa espiadinha garantia uma passagem direta, e sem volta, para a terra da danação eterna. A faixa é linda, tem um toque renascentista e destoa totalmente do todo do álbum, e essa quebrada no clima é excelente. A parceria Tobias/Mikael poderia fazer mais coisas juntos que nós amaríamos.

Depois de abraçar a morte em “Pro Memoria”, “Life Eternal” é o passo seguinte. Tobias Forge disse, em entrevista à NME que queria fechar o álbum de forma bastante ambiciosa, quase clássica. A letra é um pouco romântica, eu diria, e o acompanhamento do piano criou uma balada linda, algo que nós nunca imaginamos vir do Ghost. A morte separa os amantes? Ou a família e os amigos? Você acredita que, depois que morremos, não veremos mais nossos queridos? Você quer viver para sempre? Você ama realmente alguém para passar a eternidade com essa pessoa?

Can you hear me say your name – forever?
Can you see me longing for you – forever?
Would you let me touch your soul – forever?
Can you feel me longing for you – forever, forever?

[Life Eternal]

Acho que já deu pra entender que achamos Prequelle um albão da porra. Analisando a trajetória do Ghost, desde Opus Eponymous até Prequelle, percebemos como Tobias Forge, fundador do Ghost, evoluiu. O salto que foi dado em Meliora, em relação aos dois álbuns anteriores, foi mantido em Prequelle. As letras mantiveram um nível excelente e as melodias estão arrecadando mais elogios que as do seu predecessor, Meliora. A opção por deixar de lado o occult rock e apostar em um álbum conceitual que não se encaixa tanto na linha do tempo criada por Forge, bem como a aposta em uma sonoridade que se aproxima mais do rock das décadas de 1970 e 1980 – algo que Tobias Forge já disse ser sua intenção – foi ótima e mostra seu espírito criativo para além do satanismo, que alçou o Ghost à posição de uma das maiores bandas de heavy metal do mundo, já em seu primeiro trabalho, e que promete crescer ainda mais.

Monique Monteiro

Monique Monteiro

Historiadora aficcionada por História tardo-antiga e medieval. Adora cinema de horror, Tolkien, Lovecraft, Edgar Allan Poe e Arquivo X. Não consegue ficar sem música e brinca com todos os gatos que encontra.

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