O que o “novo” Rock n’ Roll tem para aprender com “This is America” Opinião

O que o “novo” Rock n’ Roll tem para aprender com “This is America”

13 de Maio de 2018 | Guilherme Guerra

Mesmo a maioria dos headbangers vivendo em uma bolha da década de 80 acho que todos, pelo menos a maioria, já devem ter assistido ao clipe de This is America de Childish Gambino. Se você não o fez dá uma clicada aqui e confira. Por milhões de motivos a humanidade como um todo, não só os americanos, tem muito a aprender com a música e principalmente com o vídeo clipe. Só para mencionar alguns dos temas abordados: racismo, porte de armas na atual sociedade, apropriação cultural, suicídio, mídia, redes sociais e muitos outros que ainda estão sendo descobertos.

Donald Glover ou como é tratado por seu pseudônimo, Childish Gambino, escondeu diversas referências/críticas neste clipe e simplesmente deixou que o mundo absorvesse de sua maneira. Até hoje não estão claras todas as referências mesmo mais de uma semana após o lançamento, o que para a internet é uma eternidade. Um amigo meu, Caio Muniz, tem um canal no Youtube chamado Por que Assistir? e ele tentou dar uma explicada em todas essas referências. Você pode clicar aqui para ver o vídeo do Caio.

O que o rapper americano fez foi algo simplesmente genial e necessário jogando no ventilador do mainstream o que estava engasgado na goela de milhões de pessoas. Felizmente isso não é uma exclusividade dele, o Rap/Hip Hop como um todo trazem frequentemente à tona letras de grande impacto cultural e sociológico. O que me levou a perguntar: e o Rock n’ Roll nessa festa, cadê? Por onde anda o gênero que colocou música na boca de milhares de passeatas e movimentos ao longo da história?

A resposta é simples, o Rock n’ Roll parou de contestar, parou de revolucionar, parou de ter algo a dizer. Ok, sempre tivemos o velho “sexo, drogas e rock n’ roll”, mas tínhamos bandas com letras contra o padrão da sociedade. Rage Against The MachineMidnight OilNew Model ArmyPearl Jam (sim, Pearl Jam) e se formos até o Punk/Pós-Punk, teremos bandas como Refused, Dead KennedysGang of FourThe Clash e muitos outros. Ratos de Porão é um ótimo representante brasileiro para essa lista.

Obviamente temos novas bandas que se encaixam nos quesitos previamente mencionados, principalmente na cena do metal extremo, com convicções políticas e críticas sociais. Surra, Desalmado e Damn Youth são as três que me vem à cabeça nesse momento, mas sinceramente não consigo lembrar de mais alguma, principalmente de Rock n’ Roll mainstream. O “pegar a mulherada”, esbanjar sobre festas, drogas e histórias de amor vividas pelo Tinder estão mais comuns do que você imagina. Ou então aquela luta medieval dos nossos ancestrais Vikings?! Aquele satanás trevoso regado a muito sangue de bode, hein?! Na boa, esses tópicos são ótimos para fugir da realidade mas no momento estamos precisando de pés no chão.

Hoje, o Rock – e quando digo Rock incluo Metal e todos os outros subgêneros no mesmo balaio – parou de se posicionar contra o status quo, parou de martelar na cara da sociedade. Passou a consentir com a existência do conservadorismo e pior, começou a abraçá-lo sorrateiramente. Vivemos num país livre que nem é tão livre assim quanto você imagina. Já pensou que tudo está sempre ligado as grandes corporações? O independente não vive aqui, não vende.

O brasileiro não quer saber saber o quanto fulano roubou ou qual vai ser o candidato das próximas eleições e, quando o faz, 90% das vezes é pra criar uma página no facebook de memes engraçadalhos ou então travar uma luta política digna de torcidas de futebol. Porque aqui é assim, meu amigo, se você não é A consequentemente você é B. Será mesmo?

Voltando ao independente. Várias, mas várias bandas mesmo deixaram de se posicionar por medo de não vender. O que acabou dando espaço para o conservadorismo crescer e criar raízes dentro desse mundo. Claro que nada é 100% e se hoje existem conservadores no Rock deveriam existir nos anos 80 também. A diferença é que eles eram simplesmente reprimidos pela voz da maioria. O Rock n’ Roll nunca foi lugar de gente que compartilha opiniões com deputados de partidos religiosos ou youtubers revoltados que vivem na casa de mamãe, mas está se tornando. O “se posicionar” perdeu o sentido. Já que a ideias são as mesmas quem devemos contestar? A garotada tá crescendo reverenciando político com ideologias da ditadura militar e quando esse pessoal atingir 16 anos quem vai pagar o pato?

Não é preciso ir muito longe para notar que o conservadorismo inundou nossas vidas de uma maneira irreversível. Ano passado tivemos um post aqui no HBM denunciando um festival nazista em algum lugar da Europa que não me lembro muito bem. Não foram poucas as mensagens que recebemos de “mas isso é só uma maneira de expressar” escrita das mais diversas maneiras. Confesso que aquilo me deixou meio abalado. Quer saber a nossa resposta? Clique aqui.

No cenário atual a bandeira da contestação está com o Rap nacional, internacional, de qualquer tipo. Talvez aquele gênero que você tanto julgava por só estar falando de festas, drogas e carros luxuosos tenha mudado, amadurecido e hoje encabeça as revoluções mundo afora. O Metal, principalmente no Brasil, continua naquela fila da intolerância esperando que, na melhor das hipóteses, surja alguém bombando no mainstream mandando todo mundo “para aquele lugar”.

E aí, Rock n’ Roll? Vai continuar sendo o tio do churrasco com as mesmas ideias de quando a internet era discada? Se liga, o próximo passo é a piada do “pavê, pa cumé”.

Guilherme Guerra

Guilherme Guerra

Editor-Chefe do Headbanger Mind

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