15 anos de “The Golden Age Of Grotesque” (Marilyn Manson) Resenhas

15 anos de “The Golden Age Of Grotesque” (Marilyn Manson)

7 de Maio de 2018 | André Luiz Oliveira

Avaliação:

Insanidade. Agressividade. Arte.  Lançado em 7 de Maio de 2003, há exatos quinze anos, The Golden Age Of Grotesque é um dos maiores manifestos da carreira de Marilyn Manson. O retrato de uma época de transição, em que o vocalista urgia por mudar o seu approach e expandir os horizontes de sua arte.

Este foi um divisor de águas na carreira do vocalista. Uma época de mudança, de transição entre as personalidades que o cantor havia estabelecido em seus álbuns anteriores e aquela que ele viria a construir dali para frente. Poucos anos antes (em 1999), Manson havia sido culpado pela tragédia de Columbine, o que foi um baque e tanto em sua carreira. Como resposta às acusações, o cantor lançou o disco Holy Wood (In The Shadow Of The Valley Of Death) (2000), que tecia diversas críticas à sociedade americana e seus valores e características.

The Golden Age Of Grotesque veio três anos depois e criou um momento totalmente novo na carreira do vocalista. Foi um anúncio de uma nova era, uma era de mudanças e criatividade. Por meio de sua letras ácidas, cujos temas iam desde o sexo até a religião, e de uma música marcante, Manson estreava uma nova fase de sua carreira, pautada não só nas suas músicas, mas também em sua figura como artista.

Neste aniversário de 15 anos do disco, me propus a, brevemente, reconstruir e relembrar os aspectos que compõem este que um dos grandes discos da carreira do shock-rocker.

Vamos lá.

INOVAÇÃO E NOSTALGIA: O VISUAL

As inspirações para o conceito estético deste disco foram inúmeras. De fato, são tantas que eu poderia escrever um texto só falando delas (pensando agora, esta não seria uma má ideia.).. Mas, de forma geral, pode-se dizer que Manson buscou inspirações e referências em estilos artísticos antigos como o burlesco/cabaré (o que pode ter refletido uma influência do fato de que, naquela época, Manson estava casado com a modelo Dita Von Teese, um dos grandes ícones do burlesco da atualidade). Além disso, buscou referências em movimentos como o Dadaísmo e o Vaudeville.

As influências estéticas e visuais puderam ser percebidas com bastante evidência nos shows ao vivo da turnê do disco, a chamada Grotesk Burlesk Tour. O cenário do palco evocava vários elementos presentes em diversas fontes de inspiração, como os cabarés da década de 1930, por exemplo. O figurino de Manson e da banda também ilustrava bem tais influências.

CAOS E DESTRUIÇÃO: AS MÚSICAS

Em poucas palavras: The Golden Age Of Grotesque é diferente de tudo o que o vocalista e sua banda haviam feito até então. É uma produção relativamente longa (15 faixas no total) que não descansa em nenhum momento, promovendo ao ouvinte uma excursão completa ao universo caótico e destrutivo de Marilyn Manson.

E eu não estou exagerando quando digo “caótico” e “destrutivo”. Este é discutivelmente um dos registros mais agressivos que Manson já lançou em sua carreira. Sabe aquelas músicas que te fazem querer levantar da cadeira e quebrar tudo o que está a sua volta? Pois é.

Isso se deve muito ao fato de que Manson e seu grupo trouxeram uma sonoridade mais industrial-eletrônica (não sei se isso existe, mas foi a melhor forma que achei para descrever) neste disco.

Uma das peças-chave para a definição desta sonoridade foi a entrada do baixista Tim Sköld, (ex-KMFDM). Sköld levou ao grupo de Manson toda a sua bagagem de influências e experiências de composição, o que fez dele um elemento importante para a renovação do som.

“This Is The New Shit”, primeira faixa, já deixa a proposta sonora do disco bem evidente. O baixo distorcido de Sköld dá a tônica dos versos da música que desembocam em um refrão marcante e capaz de levantar multidões. Sua letra é provocativamente ácida. A interpretação mais aceita é a de que ela faz uma crítica à conhecida “fórmula do sucesso” de alguns hits da dita “música de mainstream“, fazendo um jogo de palavras entre “hit” e “shit“. Ironicamente, este é um dos grandes sucessos do álbum.

(ATENÇÃO: O VÍDEO DESTA MÚSICA POSSUI CONTEÚDO SEXUAL LEVE).

Por falar em grandes sucessos, não podemos deixar de mencionar  “mOBSCENE”, segunda e mais bem-sucedida faixa do disco. A música chama atenção por seu ritmo envolvente e pela presença de vocais femininos no refrão, algo incomum nas músicas de Manson.

Lembra-se do estilo burlesco/cabaré, aquele presente nos cenários dos shows? Ele também foi a base para a construção dos figurinos (desenhados pela própria Dita Von Teese), cenários e da atmosfera geral do clipe desta música. Ao meu ver, estes elementos proporcionaram ao vídeo um clima bem interessante e ilustraram muito bem a proposta estética/visual do disco.

Confira:

“(s)AINT” é também um dos grandes destaques. De certa maneira, esta é a faixa que sintetiza melhor a mensagem e a proposta deste registro. Na parte musical, temos um ritmo bem marcado e um clima agressivo, com vocais poderosos e sons eletrônicos/industriais ao fundo. Já a letra é agressiva e direta, recheada de jogos de palavras e trocadilhos.

Porém, o que realmente fez desta faixa tão famosa foi o seu clipe, o qual até a gravadora se recusou a distribuir. Por quê? Pois contém cenas explícitas de: sexo, nudez, uso de drogas ilícitas, autoflagelação e tudo de errado que você conseguir imaginar. A única versão oficial do clipe lançada na época foi a incluída no DVD da coletânea Lest We Forget (2004).

Por precaução, decidi não colocar o vídeo aqui neste post, mas ele pode ser encontrado no canal oficial do cantor no YouTube. Contudo, deixo aqui um aviso: as imagens são bem fortes e chocantes. Se você possui algum tipo de sensibilidade ou se sente desconfortável com algum dos assuntos abordados no clipe, NÃO ASSISTA.

Ok, voltando para as músicas.

Momento “vamos instalar a treta”: Em minha opinião, este disco, juntamente com seu antecessor, marcou o auge de Manson como vocalista. O cara mostrou tudo o que tinha na manga, mostrando-se capaz de explorar diversos estilos vocais. Como provas desta colocação, posso citar “Use Your Fist And Not Your Mouth” e “Better Of Two Evils”. Ambas apresentam uma ótima performance vocal, que vai dos gritos rasgados até o vocal limpo.

Por fim, apesar de não constar na versão original do disco, a versão do grupo para “Tainted Love” também merece ser mencionada. Assim como havia sido feito em “Sweet Dreams (Are Made Of This)” e futuramente em “Personal Jesus”, Manson deu uma roupagem própria e mais pesada a um clássico dos anos 1980. Foi originalmente feita para integrar a trilha sonora do filme Não é mais um besteirol americano (Not Another Teen Movie, Joel Gallen, 2001), mas também foi lançada como lado B do single “mOBSCENE” e em uma das versões do álbum.

MAIS DO QUE UM ÁLBUM

Aquela foi a época que Manson finalmente percebeu que poderia expandir sua produção artística para além da produção musical. Nas palavras do próprio, em recente entrevista dada à Kerrang!: “foi um tempo que que eu senti que eu não precisava me definir simplesmente pela música”.

De fato, aqui vemos um Marilyn Manson que buscou explorar outras formas de arte. Na mesma época do disco, Manson lançou sua primeira exposição de pinturas, que levou o mesmo nome do álbum. As pinturas traziam um traço interessante e que acabou se tornando uma espécie de marca registrada do cantor. Confira algumas delas aqui.

Além disso, o cantor se aventurou no mundo do cinema, co-dirigindo alguns clipes e até produzindo curtas-metragens. O mais famoso é “Doppleherz”, filme surrealista que se encontra no DVD contido na versão deluxe do disco e pode ser facilmente encontrado na internet.

15 ANOS DEPOIS

Desnecessário dizer que este é um dos álbuns mais importantes da trajetória de Marilyn Manson, não é? “mOBSCENE” e “This Is The New Shit” hoje já são vistos como grandes clássicos e frequentemente são incorporadas aos setlists dos shows ao vivo. Além disso, músicas como “(s)AINT”, “Vodevil” e a faixa-título estão entre as favoritas de diversos fãs.

O próprio Manson, em retrospecto, vê neste disco uma das melhores fases de sua carreira. Na mesma entrevista cedida à Kerrang!, afirmou que este é álbum é um retrato de sua transição de vida favorita, e que “foi um período bem criativo” para ele.

Por fim, deixo aqui uma sugestão: Se você deseja conhecer a obra de Marilyn Manson, comece por este disco. Você pode se surpreender.

André Luiz Oliveira

André Luiz Oliveira

Estudante de jornalismo, conheceu o metal aos 14 anos e desde então é apaixonado pelo gênero. Fã de carteirinha de Rush, Pink Floyd e Ghost. Quase nunca sai sem camisa de banda e é um grande admirador de livros e filmes de terror.

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