20 anos de “Nightfall in Middle-Earth” do Blind Guardian Resenhas

20 anos de “Nightfall in Middle-Earth” do Blind Guardian

28 de Abril de 2018 | Gabriela Fernandes

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Considerado, quase que por unanimidade, como o magnum opus da banda, Nightfall in Middle-Earth completa hoje 20 anos desde seu lançamento. Com esse trabalho, o Blind Guardian se tornou um dos maiores nomes do Power Metal, mas atraiu também àqueles que não eram tão imersos no gênero. Afinal, em qualquer lista dos grandes e mais importantes álbuns do Metal, o quarteto alemão sempre se faz presente, e geralmente é com o sexto trabalho de estúdio. Além da genialidade musical que já estávamos acostumados, a popularidade de Nightfall foi alavancada pelo fato deste ser um álbum conceitual, baseado inteiramente em O Silmarillion, do famoso escritor J. R. R. Tolkien.

Recheado de clássicos como “Mirror Mirror”, “Into the Storm” e a manjadíssima “Nightfall”, Nightfall in Middle-Earth é um verdadeiro tesouro para os amantes do metal farofinha, admiradores de discos conceituais e fãs da Terra Média. Mas, além disso, os bardos alemães trouxeram algo que nunca havíamos escutado antes. Os caras revolucionaram a maneira de compôr, adaptando uma obra literária de uma maneira que muitos filmes não conseguem fazer. Sem dúvidas, foi um disco inovador, um marco no Power Metal e no Metal em geral. Ainda, o disco foi responsável por apresentar muitos fãs da banda ao universo de Tolkien e vice-versa.

PS: Se você ainda não leu O Silmarillion, fique tranquilo, não vamos soltar spoilers!

A complexidade musical de Nightfall é de nos deixar maravilhados. Cada detalhe foi planejado milimetricamente e não há nada fora do lugar. A ordem das músicas, dos interlúdios, orquestrações, momentos acústicos… O disco contém 22 faixas, sendo 10 delas apenas passagens curtas, pequenos trechos com monólogos ou sons/ruídos que ajudam a contar a história de O Silmarillion. Além, é claro, da introdução “War of Wrath”, um diálogo de 2 minutos entre Morgoth e Sauron, com direito à passos ecoando, lutas de espadas e gritos em batalha.

Nightfall in Middle-Earth é um disco extremamente explosivo, energético e muito, MUITO épico. Ele possui momentos variados, com músicas mais agitadas, outras mais lentas e até uma baladinha. Uma das características mais marcantes da banda é a habilidade de criar refrões pegajosos, contagiantes e bem fáceis de acompanhar. Em Nightfall isso chega ao nível do ridículo, pois quase todas as músicas parecem feitas para serem cantadas em coro. Além disso, é a primeira vez que os bardos usam elementos de orquestra. E o uso de overdubbing (quando a voz é duplicada nas gravações) e de coral deixaram as músicas com um aspecto cinematográfico. Também há o frequente uso de instrumentos folclóricos, ajudando a construir uma atmosfera medieval — num disco que fala sobre a Terra Média, isso é muito importante.

“Into The Storm”, “The Curse of Feanor”, “Mirror Mirror” e “Time Stands Still (At The Iron Hill)” são as canções mais energéticas do álbum. As guitarras agudas da dupla André Olbrich (lead) e Marcus Siepen (rythm) estão sempre em harmonia criando melodias “cantáveis”. Eu duvido você passar o disco inteiro sem cantarolar “oh oh oh” em algum riff! E não só o duo de guitarras que combina, mas a lead guitar caminha lado a lado com as linhas vocais de Hansi Kürsch. Junta isso tudo ao bumbo duplo cheio de gingado do ex-batera Thomen Stauch, e você tem a fórmula perfeita de Power Metal para o sucesso. Quando alguém te pedir pra definir o gênero, pode mostrar “Mirror Mirror”, a mais rápida e intensa do disco. A música tem, literalmente, todos os elementos importantes e característicos do Power, além de ser um puta clássico.

Do outro lado do espectro, temos “Nightfall”, “Thorn”, “Blood Tears” e “Noldor (Dead Winter Reigns)”, canções com um ritmo um pouco mais lento. As harmonias vocais densas, em forma de coro, ajudam a tornar os refrões dessas músicas extremamente pegajosos. Aliás, algo legal de mencionar é que é muito fácil encontrar os títulos das músicas nas próprias canções: geralmente estão nos refrões, com bastante destaque.

Os destaques vão, além de, claro, “Nightfall”, uma das músicas mais tradicionais do Guardian; pros vocais absurdos de Hansi Kürsch em Noldor. Okay, todo mundo sabe (e se você não sabia, agora tá sabendo também) que Kürsch é um vocalista surreal. Em 1 hora de álbum, o cara mantém a voz lá no alto quase o tempo todo (e nem pense que o bonito desafina ao vivo, porque ele não desafina). Mas em Noldor, Hansi vai das notas mais graves até algumas das mais agudas e estridentes.

A única baladinha presente no disco, “The Elder”, também traz algo inédito. É a primeira (e única) faixa do Blind Guardian somente em piano e voz. É uma canção mais orgânica e simples, sem efeitos e sem coro. Onde a voz de Kürsch impressiona, esbanjando toda a sua técnica impecável. E, chegando bem no finalzinho do disco, “When Sorrow Sang” e “A Dark Passage” retomam a pegada mais agitada. As duas músicas conseguem captar o desfecho da obra original, e transmitem uma sensação de “adeus, o livro/álbum está acabando”. Com isso, uma pequena passagem chamada “Final Chapter (Thus Ends…)” encerra o disco com um narrador e sons de chuva e trovões.

A riqueza do álbum faz jus à obra de Tolkien, o maior nome da literatura fantástica que conhecemos. E, acredito eu, que o Blind Guardian seja uma banda importantíssima na cena em disseminar os trabalhos do Mestre. Nightfall in Middle-Earth é capaz de trazer as mesmas sensações que um livro traz. Uma montanha russa de emoções. Onde o ouvinte consegue sentir o furor da batalha, o lamento da derrota, o alívio da vitória. O sucesso em assimilar e transmitir musicalmente os diferentes momentos de O Silmarillion, aliado às letras no estilo storytelling operístico, explicam a grandiosidade que Nightfall carrega.

Ouça Nightfall in Middle-Earth no Spotify
Gabriela Fernandes

Gabriela Fernandes

Carioca da gema, estudante de química e ouvinte apaixonada de música pesada. É a louca do metal progressivo e adora enaltecer as bandas favoritas na rodinha dos amigos. Seguidora de George R. R. Martin e admiradora de universos fantásticos em geral. Acredita que uma boa pizza resolve tudo.

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