Kamelot “The Shadow Theory” Resenhas

Kamelot “The Shadow Theory”

14 de Abril de 2018 | Camila Buzzo

Avaliação:

Demorou, mas o dia chegou. O dia em que o Kamelot chegaria mais uma vez ao limite do que conhecemos como Kamelot chegou.

Se você começou a ler esta resenha e não está entendendo nada, acalme-se e respire fundo que vou te explicar sobre o que estou falando. E, como toda forma de arte, entender o contexto da obra pode ser crucial para a experiência de seu apreciador.

 

O fim de uma era

Até meados de 2010, o Kamelot vivia o auge do sucesso com o insuperável e incomparável Roy Khan à frente dos vocais. E eu, uma jovem headbanger, tinha a banda como uma das minhas preferidas de todos os tempos. De repente, meu mundo desabou quando, em abril de 2011, foi anunciada a saída do cantor norueguês. Anos mais tarde, soube que ele sofria de depressão e burnout e por isso decidiu se afastar da música. Para a turnê brasileira do álbum Poetry for the Poisoned (2010), quem assumiu seu papel foi Fabio Lione e, apesar de ser um ótimo vocalista, para mim este era o fim. Não aceitava outra voz à frente da banda. Ninguém poderia sequer chegar aos pés de Roy Khan. Ele era mais do que apenas uma voz, era também o sentimento, o coração pulsante do Kamelot… Enfim, no ano seguinte paguei a língua – pela primeira vez.

À época, a sonoridade cada vez mais sombria e experimental pela qual os álbuns Ghost Opera e Poetry for the Poisoned caminharam não me deixaram muito confortável. São, inclusive, os álbuns que menos escuto até hoje, com exceção de algumas poucas músicas. Hoje compreendo que, naquele momento da história, o Kamelot saía pela primeira vez de sua zona de conforto e de forma magistral.

Portanto, após uma dupla perda musical, já que Roy também participava ativamente das composições da banda, o que viria a seguir ainda era uma incógnita.

 

Pisando em ovos

Meu luto se abrandou ao conhecer um jovem sueco chamado Tommy Karevik, até então desconhecido pelo público headbanger em geral. Tommy seria o novo vocalista do Kamelot e seu próximo trabalho, Silverthorn, já estava anunciado. Mas ninguém poderia saber como seria a música da banda com esta nova formação.

Apesar de extremamente competente e capaz de interpretar de forma digna as canções da era Roy Khan, muitos fãs ainda se mostravam descontentes. Em Silverthorn (2012), percebemos composições nada ousadas que seguem a linha dos trabalhos mais sinfônicos do Kamelot. Mas o que mais impressiona é a maneira como Karevik se esforça para interpretar à maneira de Khan – em alguns momentos é difícil saber quem está cantando, principalmente nas notas mais baixas. Até mesmo a linguagem corporal em palco e nos clipes faz lembrar o antigo vocalista.

Como era de se esperar, as comparações entre os cantores eram incessantes. Com a fama alcançada a partir da entrada no Kamelot, o público passou a se interessar pelo trabalho de Tommy no Seventh Wonder e no Ayreon, nas quais seu estilo é completamente diferente do apresentado na banda de Power Metal até então.

Em Haven (2015), temos uma guinada para o lado progressivo da força, com a inclusão de elementos eletrônicos – numa tentativa de combinar com a temática pós-apocalíptica do álbum. Haven é muito mais consistente que seu antecessor, apesar de ainda mostrar a banda totalmente dentro de sua zona de conforto. Nada muda significativamente no Kamelot: nem o estilo de composição, nem o instrumental, nem a voz, nem os feats, nem produção e mixagem. Vale lembrar que o produtor do Kamelot é o alemão Sascha Paeth, desde que a banda se conhece por gente (a partir de 1999).

A partir deste momento, os fãs já estavam incrédulos com relação ao próximo trabalho da banda. Rolavam comentários pelos grupos afora de que o próximo álbum seria com certeza um Silverthorn 3.0. Após a liberação das primeiras informações de The Shadow Theory, tivemos ainda mais certeza disso – a banda continuaria dentro da temática pós-apocalíptica, e os teasers não mostraram nada diferente do habitual. Agora sabemos que nem mesmo os singles tiveram a capacidade de ilustrar o clima presente neste novo trabalho. Passemos ao próximo capítulo.

kamelot shadow theory

 

MAS O QUE É ISSO?

Pouco antes do lançamento do primeiro single, “RavenLight”, tivemos a triste notícia de que Casey Grillo, baterista do Kamelot desde o álbum Siége Perilous (1998), decidira deixar a banda. Além de tudo, era o membro mais antigo da banda além do guitarrista e fundador Thomas Youngblood. Quem entrou em seu lugar foi o belga Johan Nunez, conhecido pelo seu trabalho na banda grega de Power Metal Firewind. Porém, ainda não havia informações sobre quem havia gravado a bateria em The Shadow Theory.

Assim que ouvi o segundo single, “Phantom Divine (Shadow Empire)”, com ouvidos atentos, percebi que algo de errado não estava certo. Apesar da composição e título serem praticamente a mistura entre os singles passados “Sacrimony (Angel of Afterlife)” e “Liar Liar (Wasteland Monarchy)”, a música mostra uma mixagem e produção completamente diferentes de tudo que o Kamelot já fez. Minha pulga estava onde deveria estar, bem atrás da orelha.

 

Transição

Finalmente, uma semana após o lançamento do clipe de “Phantom Divine”, o tão aguardado álbum do Kamelot estava disponível em todas as plataformas. O acontecimento do ano para quem estava com expectativas baixas e que de repente se tornou minha obsessão. Em resumo, The Shadow Theory se mostrou muito superior às minhas melhores expectativas e posso contar nos dedos quantos álbuns me deixaram tão extasiada logo na primeira audição. Escrevo esta resenha com a alma lavada.

O álbum se inicia com uma faixa instrumental, “The Mission”, prelúdio ao single “Phantom Divine”, de atmosfera sombria e elementos orquestrais muito bem executados. “Phantom Divine” funciona claramente como um elo entre este álbum e os anteriores. Temos aqui também uma curta participação da excepcional Lauren Hart, vocalista da banda de Groove Metal Once Human. As primeiras pinceladas dos detalhes que farão a diferença no conjunto do trabalho começam a aparecer. E, como arquiteta, posso dizer com a maior certeza do mundo de que os detalhes, por menores que sejam, são capazes de tornar um trabalho regular em algo surpreendente.

Em seguida, “RavenLight”, mais pesada e dramática, nos introduz ao clima robótico e vazio que estará presente nas próximas faixas. Não apenas pós-apocalíptico, The Shadow Theory aborda conceitos parecidos com o que vemos na série Altered Carbon, da Netflix, na qual a humanidade encontra uma maneira de driblar a morte. As letras, porém, são mais enigmáticas do que bem trabalhadas, o que deixa a compreensão do tema um pouco difícil de alcançar. A pegada robótica chega com força em “Amnesiac”, onde o Kamelot encontra o Metal Industrial numa composição que consegue ser inusitada e grudenta. Um dos primeiros pontos altos do trabalho até agora.

 

No limite do Kamelot

Se lembram do que eu disse ali atrás sobre algo soar diferente? A esta altura, não foi difícil de descobrir o que era. Nada menos que bateria e baixo, instrumentos que não poucas vezes são subestimados pelo público. Sim, foi Nunez quem gravou este álbum, cujo estilo é bem diferente do estilo de Grillo, e a banda decidiu tomar partido deste novo elemento. As linhas de baixo de Sean Tibbetts também estão mais bem trabalhadas e mais evidentes do que nos trabalhos anteriores do Kamelot. Aqui também podemos perceber Tommy Karevik mais livre para cantar em sua melhor forma e, principalmente, sem tentar forçadamente soar como Roy Khan. Porém, sem uma boa mixagem e produção, nada disso teria sido perceptível e valorizado. E este é o maior trunfo de The Shadow Theory.

Talvez me considerem exagerada se eu afirmar que temos algumas das melhores composições do Kamelot presentes neste álbum. É o caso de “Burns to Embrace”, que nos apresenta um instrumental recheado de passagens interessantes e criativas, com certeza inspiradas nas melhores fontes do Metal Progressivo, e um refrão épico que cola na mente.

Na sequência, temos a obrigatória balada com vocal feminino presente na maioria os álbuns do Kamelot. Dessa vez, nossos ouvidos são agraciados com a voz de Jennifer Haben, do Beyond the Black. Num primeiro momento, a música me pareceu um tanto melosa pelo combo drama e instrumental cheesy. Porém, o dueto entre as duas vozes é de longe o melhor desde que Tommy Karevik assumiu seu posto na banda.

Bem, se o álbum tem músicas excepcionais, não seria surpresa se algumas delas fossem esquecíveis. A genérica “Kevlar Skin” cumpre sua função de encher linguiça, apesar de possuir notável qualidade musical. A segunda balada do álbum é representada por “Static”, que mostra de forma competente os elementos sinfônicos de Oliver Palotai. Fechando o bloco das músicas não tão interessantes, e com a segunda participação de Lauren Hart no álbum, temos a maquinada e dura “Mindfall Remedy”, a melhor demonstração do talento de Johan Nunez até então.

Depois dessa breve folga, o que esperar das últimas canções do álbum? Mais algumas das melhores composições da história do Kamelot, assim, uma seguida da outra. “Stories Unheard” é uma das mais emocionantes baladas da banda e não consigo dizer o que se destaca aqui. Instrumental, letra e linhas vocais de Tommy Karevik se encontram e se unem de forma primorosa. Após a queda de algumas lágrimas, somos arremessadas de volta à época em que o Power Metal era bom. E pasmem, o Kamelot, mesmo depois de navegar por anos pelos mares sinfônicos, ainda sabe fazer o puro Power Metal de forma excepcional em “Vespertine (My Crimson Bride)”.

O clímax de todo o trabalho acontece ao final de “The Proud and the Broken”, em seus pouco mais de seis minutos. Num turbilhão de referências ao Kamelot clássico e ainda assim buscando por elementos inéditos, é a perfeita síntese do Prog Power através do qual a banda se tornou grande. Tudo isso unido à melhor performance de Tommy Karevik no Kamelot, sem dúvida. Para fechar o álbum, a instrumental “Ministrium (Shadow Key)” te faz pensar no que você acabou de ouvir, numa progressão aparentemente otimista que cai por terra quando se iniciam elementos eletrônicos perfeitamente alinhados com a orquestra.

Não precisaria falar sobre ela, mas já que a banda disponibilizou no Spotify a versão deluxe do álbum, temos ainda uma bonus track, “The Last Day of Sunlight”. Apesar de fugir do clima geral do álbum, a faixa é mais uma obra prima escrita pelo Kamelot, com direito a sons de teremim e participação de Bob Katsionis (Firewind) na composição.

Que aprovei o álbum com honras, já não restam dúvidas. The Shadow Theory pode ser considerado o trabalho mais sofisticado e maduro do Kamelot nesta fase atual. Porém, ainda percebemos muitas potencialidades que podem ser melhor trabalhadas no futuro, e alguns vícios que poderiam ser deixados de lado. Em contrapartida, as maiores qualidades do décimo segundo álbum do Kamelot são a atenção aos detalhes e a valorização do melhor que a banda pode oferecer, sem abandonar sua história e suas raízes. É a perfeita definição de Kamelot no seu limite.

 

Camila Buzzo

Camila Buzzo

Arquiteta aficionada por música, moda, pela cultura nórdica e ficção científica. Gótica só na alma - adora calor e raramente veste preto. Adora um drama no cinema e na literatura (olá, Dostoiévski!). Seu lema "quanto pior, melhor" se reflete também na música depressiva que nunca abandona sua playlist.

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