Debate: consumo e distribuição de música Opinião

Debate: consumo e distribuição de música

22 de Março de 2018 | Stephany Nusch

Misha Mansoor – um dos guitarristas do Periphery – disse recentemente que não consegue se sustentar apenas com a banda, mas insiste que ainda há oportunidades na indústria da música. Seja com patrocínios ou equipamentos sob sua assinatura, alguns artistas estão encontrando alternativas. Entretanto, ainda é muito difícil sair em turnê sem ficar no prejuízo.

Ele deu uma entrevista bastante interessante para o site Ultimate Guitar. Você pode conferir o artigo original aqui, mas também conferir a nossa tradução abaixo:

Haverá outra banda de metal que venderá tantos discos quanto o Metallica?

“Não! Ninguém vende mais CDs de qualquer forma hoje. Foi tudo embora. Desapareceu.”

Como pessoas que estão em bandas de rock… o que elas precisam fazer de diferente hoje em dia em relação a 20 anos atrás?

“Fazer dinheiro fora da banda. Isso é o que eu faço com os produtos da minha própria linha.

“É a minha maneira de conseguir algum sustento. É a minha maneira de construir uma vida por mim mesmo. As pessoas às vezes pensam “O Periphery está conseguindo algum sucesso.” A gente não é uma banda enorme, mas nos saímos bem. Porém não fazemos dinheiro. E as pessoas tem muita dificuldade em entender isso.

“Porque mesmo que a gente tenha começado a fazer dinheiro, você gasta muito e não ganha nada. A habilidade de monetizar música caiu numa escala de, deus sabe quanto, 10, 100, tanto faz. Mas o custo de fazer turnês continua o mesmo. Isso só significa que você vai ganhar muito pouco.

“E depois, se você quiser ter uma produção legal como nós, você não vai querer levar apenas o básico. Você quer oferecer um show confortável, então você gasta dinheiro com isso.”

“Então sim, nós vamos gastar bastante pra ganhar pouco. A gente fez uma tour de 5 semanas na Europa no ano passado e terminamos com nada. E essa é a realidade disso – turnês europeias são muito caras.

Periphery

Mark Holcomb e Misha Mansoor, guitarristas do Periphery.

“Headliners dos EUA conseguem se sair bem, mas você não pode fazer isso o tempo todo porque todo mundo está em turnê – mercado saturado, suas garantias vão estagnar ou decair.

“Então basicamente não é mais uma fonte viável de renda para a maioria das bandas. Algumas bandas são mais bem afortunadas nisso, as bandas que fazem muito merch e podem abater tudo com ele. Mas é cada vez mais difícil.

“Uma maneira de olhar pra isso é, digamos que para o bem da discussão, sua possibilidade de fazer dinheiro decai 10 níveis por causa do Spotify/download ou qualquer coisa do tipo. Você estava fazendo 1 milhão de dólares por ano, e agora faz 100 mil. Então ok, você pode continuar vivendo disso. Você não vai viver com tanto luxo, mas vai viver.

“Mas se você estava fazendo 100 mil antes, agora está fazendo 10 mil. Isso não é muito.

“Eu estou com 33 e conforme as pessoas vão envelhecendo… quando eu tinha meus 20 anos, eu não ligava de dormir no chão e tal. Hoje eu não vou fazer turnês apertado numa van, não acho mais isso divertido. Não vale a pena. Todos nós já tivemos a nossa cota.

“Então é mais um daqueles casos onde a música está apenas mais e mais virando uma diversão. Mas é porque a gente previu isso. A gente não tinha ilusões. Quando eu comecei a banda, era tipo “eu vou fazer um metal de nerd”, ninguém liga pra gente mesmo. E ninguém ligava mesmo pra esse estilo de música.

“Eu ficaria surpreso em ter até mesmo 100 pessoas no nosso show. Então era tipo, “Eu vou precisar arranjar outras maneiras de me sustentar. Isso vai ser apenas por diversão.” E eu acho que isso é mais verdade do que nunca agora.”

Misha Mansoor

Misha Mansoor

Misha revelou mais sobre sua abordagem aos negócios e renda:

“Você sabe como é o ciclo de negócios e o ciclo de produtos. É, tipo, eles começam forte, eles mergulham. Então, se eu estou confiando em uma coisa e é o fim de um ciclo de produto, eu ainda tenho que comprar comida. [Risos] Se você diversificar tudo, você terá renda.

“E isso tudo vai ter o máximo de renda passiva possível para me permitir tanto tempo livre quanto possível para trabalhar com música e me divertir com ela, então a música pode ser o que deveria ser e o que realmente era para mim no começo, que é apenas uma saída divertida.

“Não foi esse tipo de dança doentia que você faz com a indústria onde você começa com a melhor das intenções, mas antes que você perceba, você está administrando o negócio e está tentando administrar esta linha tênue na indústria da música. Estou tentando manter a música divertida.

“E agora que foi totalmente removido da minha renda… Periphery não tem nenhum impacto sobre minhas finanças. Então agora podemos ser apenas o projeto que eu queria que fosse. E eu não me importo que ninguém compre nossos álbuns porque não iriam comprar de qualquer maneira. [Risos] Não é como se nós vendêssemos discos.

“E o Metallica e tudo isso – acabou. Vai ser outra coisa. Há bandas que conseguem uma tonelada de execuções no Spotify e ganham dinheiro, mas o metal sempre foi um gênero de nicho e eu não acho que isso vai mudar. Eu não acho que isso [metal] seja agradável para a maioria das pessoas, então não vamos ter bilhões de execuções no Spotify ou algo assim.

“Eu sou o tipo de pessoa que muda de oportunidade. Porque eu sei que é muito fácil ser assim: ‘Isso é uma merda!’ E de certa forma é objetivamente uma merda. Mas eu gosto de olhar para a oportunidade. A liberdade que vem com isso é que não precisamos de nada. Se não quisermos fazer uma turnê pela Europa novamente, não vamos. [Risos] Nós vamos porque fizemos alguns bons shows lá.

“Mas acho que também seremos mais estratégicos. Há muitos mercados em que trabalhamos por uma década que não cresceram e são muito caros. Nós estamos indo até a Europa Oriental para um lucro nulo no show, enquanto a gasolina que nos custou para chegar lá significa que estamos realmente pagando por aquele show. Isso é subsidiado pelos nossos shows na Europa Ocidental, onde nós recebemos melhores garantias. Eu não sei se vale mais a pena…

“E essa é a realidade. Quero dizer, os fãs não podem ter as duas coisas, eles não podem dizer, ‘Bem, não vai haver dinheiro nesta indústria, mas você ainda tem que vir para a nossa cidade’. Não. Nós vamos ser estratégicos, isso é um custo. Isso é o que acontecerá.

“E com certeza, se você está começando e tentando construir um nome para você, você está investindo nisso. E nós fizemos isso, já fazemos isso há quase uma década. E agora estamos no ponto em que podemos fazer exatamente o que quer que desejemos. Nós faremos turnê sempre que quisermos, vamos fazer os shows que queremos, não vamos fazer os shows que não queremos”.

periphery

Periphery, Sonic Unrest Tour.

Como você, fã, consome música?

Como apontado pelo Misha no final da entrevista, muito se cobra das bandas. “Mas eles não vem pra minha cidade”, “porque vocês não lançam mais nada?”, “cadê aquele clipe que vocês prometeram anos atrás?”. É um fato que a venda de discos físicos hoje em dia caiu de maneira brusca. Sustentar uma turnê ou até mesmo um videoclipe pode ficar muito pesado, pois chega um momento no qual o artista não quer mais entregar o básico. Nesse cenário, os streamings tomam conta dos smartphones e computadores da maioria esmagadora dos ouvintes. Com preços convidativos, um vasto catálogo e a indiscutível portabilidade, aplicativos como Spotify e Deezer se destacam.

Apesar da praticidade para o consumidor, os streamings pagam muito pouco aos artistas, que precisam de uma quantidade enorme de execuções para receber algum retorno considerável. Você pode conferir alguns valores nessa matéria da Rolling Stone. Quando falamos das plataformas digitais possivelmente a mais rentável seja o Bandcamp, que fica com apenas 15% do valor pago pela compra. Além disso o artista pode determinar o valor do material ou até mesmo configurar para “pague o quanto quiser”.

Estar presente nos shows, comprar produtos oficiais e divulgar as bandas que você curte sempre vão ser uma maneira ótima de prestigiar aquele artista que você admira. Particularmente, já ajudei em alguns financiamentos coletivos e pago mensalmente algum valor em plataformas com essa finalidade (Patreon, Catarse, Kickstarter). Fora isso, junto com a nossa outra redatora, Amanda, gerencio alguns grupos de fãs promovendo interações.

Entretanto, é muito importante que o fã nunca pense que é dono do artista. A arte e a criatividade nunca devem estar presas numa caixinha e servir para agradar a um tipo específico de pessoa. Isso deve ser uma consequência do trabalho, ou até mesmo um acaso. Um comportamento que percebo de alguns “fãs” é condenar o artista quando ele segue um caminho que não era aquele com o qual estava todo mundo acostumado. Mas sinceramente, creio que seja exatamente isso que defina o verdadeiro artista: a capacidade de olhar para todos os lados sem medo de experimentar. É claro que estamos certos em cobrar qualidade e respeito – é o mínimo -, mas não somos donos de ninguém.

E como você, artista, distribui a sua música?

A oferta para o público só cresce e o consumidor fica cada vez mais exigente. Pensar apenas num show padrão não serve mais. A experiência conta muito mais do que qualquer coisa na hora de engajar o público. Poucos são os artistas com longevidade o suficiente para se dar ao luxo de não estarem presentes nas redes sociais o tempo inteiro.

É preciso saber patrocinar seus posts e fazer as pessoas ficarem interessadas pelo que você tem a dizer, oferecer uma estrutura bacana para os seus eventos e acima de tudo respeitar as pessoas que te admiram. O Music Business está cada vez mais presente e quem o domina tem muito poder nas mãos. Não é mais só chegar e tocar. E nunca mais vai ser.

O mercado está passando por um momento de transição e para que as coisas funcionem, cada um de nós precisa fazer a sua parte. Por isso resolvemos levantar esse debate aqui no site. Entrevistas como essa do Misha são extremamente necessárias porque todas as partes precisam ser sinceras e expor os seus pontos. Precisamos nos adaptar, evoluir e entender o cenário no qual estamos, direta ou indiretamente, inseridos. Como você que está lendo isso consome/distribui música? Quando você admira um artista, o que você faz para prestigiá-lo? Quais são os principais problemas (e possíveis soluções) para a cena hoje em dia?

Stephany Nusch

Stephany Nusch

Estudante de Produção Musical e Showbusiness, é apaixonada por metal desde o início da adolescência. É bastante fã de literatura fantástica e de gatinhos. Acredita que toda arte tem seu valor e manda "Come to Brazil" nas redes sociais das bandas sem um pingo de vergonha na cara.

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