Judas Priest “Firepower” Resenhas

Judas Priest “Firepower”

20 de Março de 2018 | André Luiz Oliveira

Avaliação:

Bom dia, boa tarde e boa noite, headbangers de todo o Brasil. Há pouco mais de uma semana foi lançado Firepower, décimo oitavo trabalho de estúdio do Judas Priest, um álbum que está dando o que falar. Recordista de vendas em vários países do mundo, a opinião da crítica parece unânime: ele faz por merecer todos os elogios.

Sendo uma banda seminal do heavy metal, o Priest atrai os interesses de fãs de todas as gerações, uma prova de sua importância e longevidade. Tendo isso em mente, eu (André Luiz Oliveira) uni forças com meu amigo Raul Kuk para fazer uma resenha especial para este disco, trazendo tanto a visão de um fã antigo, que acompanhou em tempo real uma parte da história do Priest, quanto a visão de um fã mais recente.

Confira:

O QUE ACHOU RAUL KUK

Eu conheci o Judas Priest (e rock/metal em geral) no agora longínquo ano de 1991, quando a banda veio para o Brasil participar da segunda edição do Rock In Rio. Claro, todas as minhas atenções se voltaram para as apresentações do Guns n’ Roses, mas não tinha como ignorar Megadeth, Queensryche, Faith no More…

…e o Priest.

Divulgando o álbum Painkiller, um divisor de águas na carreira da banda, o Priest fez shows sensacionais no Rio de Janeiro. Meses depois, a notícia de que o vocalista Rob Halford estava deixando a banda atingiu o mundo com tanto impacto quanto sua música — levaria quase uma década para que ele retornasse ao posto.

Nesse interím, eu não apenas mergulhei nos dois ótimos álbuns lançados com seu substituto, o subestimado Tim “Ripper” Owens, como também me aprofundei no catálogo da banda. Discos como Sad Wings of Destiny e British Steel se tornaram “audição obrigatória” para mim, pela qualidade das músicas, o excelente trabalho dos guitarristas KK Downing e Glen Tipton, e, claro, os vocais de Halford.

Sua volta ao Judas Priest, no entanto, não me empolgou. Ele trilhava uma sólida carreira solo e Owens ainda tinha muito a oferecer à banda. O disco que marcou o retorno, Angel of Retribution, é muito bom, com uma sonoridade que conseguia aliar o moderno ao clássico — mas não chegava a ser um marco. Na sequência, a banda lançou o conceitual Nostradamus — nota dez pela coragem de incorporar teclados e interlúdios, uma pretensão mais teatral ao contar a história do famigerado profeta italiano, mas, no geral, erraram o alvo. Redeemer of Souls veio em seguida, com uma profunda alteração na formação da banda — Downing fora substituído por Richie Faulkner — mas músicas pouco inspiradas e cheias de clichês tiraram o brilho do que poderia ser um passo à frente pro grupo.

Às vésperas do lançamento de Firepower, fomos informados dos problemas de saúde de Glen Tipton (diagnosticado com Parkinson), sendo substituído por Andy Sneap — um duro golpe, que me fez questionar se a banda não estaria se perdendo. Os primeiros singles divulgados, no entanto, mostravam um material muito bom, consistente e coeso.

A verdade é que a experiência de ouvir um disco se mistura muito com o momento em que o ouvinte está vivendo. Após um longo e tenebroso inverno, de empregos que não eram o que pareciam ser, eu precisei reinventar minha carreira. Não importa o que você faça, não importa o quão bem você faça, a verdade é que não existe esse negócio de “se encontrar”. O segredo é se reinventar. Sempre. E foi exatamente aí que o álbum me fisgou.

Chegava a ser estranho ouvir um som tão revigorado de uma banda que parecia ter se acomodado sobre a própria reputação. Quase meio século de experiência, no entanto, mostrou que eles souberam dosar as quantidades corretas do moderno e do clássico, do risco e da segurança. Se isso é realmente uma amostra do que podemos esperar nos shows, eu não quero perder eventuais datas no Brasil. “Firepower” faz as pazes com o passado oitentista da banda, flertando com o hard rock e músicas que jogam o ouvinte “pra cima”, mas, ao mesmo tempo, tem uma produção cuidadosa, composições inspiradíssimas e Halford… Bom, ele não é chamado “metal god” a toa.

Aos 66 anos de idade, ele continua impressionando. Sabe a hora certa de gritar, de acelerar, de cadenciar. Sem exageros ou firulas desnecessárias, qualidades de quem tem absoluto controle sobre seu dom e sabe usá-lo na medida certa para favorecer a música, e não se levar pelo ego. A cozinha continua um espetáculo à parte, mantendo o peso, sem tentar soar como um “Painkiller 2”. O timbre das guitarras segue a linha dos últimos álbuns, ainda que as composições estejam muito, mas MUITO melhores. Essa união entre o antigo e o atual serve como um perfeito tributo à contribuição de Tipton para o legado do Priest, mas também mostra Halford pronto para encarar o futuro de frente. Ele não é mais um garoto, que vai cometer um monte de excessos em uma longa turnê — ele vai oferecer apenas o melhor dentro das condições que tem.

Não é pouco. É do Judas Priest que estamos falando.

Nota máxima.

O QUE ACHOU ANDRÉ LUIZ OLIVEIRA

Uma coisa que eu costumava fazer nos meus tempos de Ensino Médio era ouvir música enquanto estudava. Além de me ajudar na concentração (só Deus sabe o motivo), era uma boa oportunidade para um até então iniciante no Metal descobrir a obra das grandes bandas do gênero.

Foi assim que conheci o Judas Priest. Lembro muito bem de estar resolvendo equações de matemática quando “Painkiller” começou a tocar, e tudo o que eu consegui fazer foi parar tudo e focar na música. Aqueles vocais agudos, a introdução de bateria, os riffs… aquilo tudo me envolveu de tal maneira que, ao final dos 6 minutos de duração, fiquei sem palavras. Nunca havia ouvido nada parecido, e eu queria mais daquilo.

A partir daí, foi só uma questão de tempo até que eu fosse atrás de outras músicas do grupo. Faixas como “Breaking The Law”, “Freewheel Burning” e, é claro, “Painkiller” eram parte integrante da minha playlist e raramente a deixavam. Desenvolvi uma relação muito forte com a fase clássica do grupo; relação esta que dura até os dias de hoje.

Então, vocês já podem imaginar que Firepower foi uma grata surpresa aos meus ouvidos. Na verdade, uma grata, explosiva e sublime surpresa. Foi muito bom perceber que, mesmo após mais de 40 anos de estrada, a banda ainda soa jovem, revigorada e capaz lançar um registro tão bom quanto aqueles da dita fase áurea.

Isso se deve, em primeiro lugar, ao excelente time de músicos. O grupo soa incrivelmente coeso, algo que eu não havia percebido tanto em Redeemer Of Souls (2014). Tudo contribui para a atmosfera geral do disco; todos os integrantes desempenham um papel fundamental na constituição das músicas. Na seção rítmica, Ian Hill sustenta muito bem a base com suas linhas baixo  bem colocadas e Scott Travis traz uma bom dinamismo com uma bateria precisa e energética. Na linha de frente, temos a dupla Glenn Tipton / Richard Faulkner, que apresenta uma verdadeira explosão de riffs, com arranjos pesados e bem elaborados; e também Rob Halford que, é claro, nos presenteia com mais uma performance impecável.

Firepower é também um disco que agrada a todos os públicos do grupo. A banda sintetizou muito bem a fórmula (de sucesso) dos clássicos consagrados com propostas mais modernas, criando um álbum que soa simultaneamente nostálgico e atual. Ao mesmo tempo que temos faixas como “Never The Heroes”, que caberia perfeitamente em Defenders Of The Faith (1984), temos outras como “Rising From Ruins” e “Sea Of Red”, capazes de deixar qualquer fã de Power Metal babando.

Veja o Lyric Video de “Never The Heroes”:

É aí que, para mim, está o verdadeiro valor do disco. Mostra uma banda que ainda sabe se reinventar e sair da zona de conforto, mesmo já tendo uma reputação mais do que consolidada. Além disso, mostra um grupo de músicos que está disposto a sempre, de certa forma, se superar e, acima de tudo, lançar trabalhos de qualidade.

Em suma: Firepower veio para mostrar que o Priest segue vivíssimo e que, pelo visto, ainda tem bastante gás para (ao menos) mais alguns bons anos de Heavy Metal.

O VEREDITO

Sem medo de errar, esse disco é um dos mais importantes lançamentos do ano e, também, um dos álbuns mais significativos da carreira do Judas Priest. British Steel e Painkiller marcaram novas fases na discografia da banda, horizontes que foram conquistados com muito esforço e dedicação. Firepower talvez não seja o último da carreira, mas certamente vem para coroá-la, mostrando a toda uma geração o que realmente significa lançar um disco sólido, coeso e com sonoridade marcante. Nem mesmo os veteranos podem se gabar disso hoje em dia – e os novatos estão diante de uma verdadeira aula de metal.

André Luiz Oliveira

André Luiz Oliveira

Estudante de jornalismo, conheceu o metal aos 14 anos e desde então é apaixonado pelo gênero. Fã de carteirinha de Rush, Pink Floyd e Ghost. Quase nunca sai sem camisa de banda e é um grande admirador de livros e filmes de terror.

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