Oceans of Slumber “The Banished Heart” Resenhas

Oceans of Slumber “The Banished Heart”

9 de Março de 2018 | Gabriela Fernandes

Avaliação:

Numa mistura pouco usual que une a complexidade do Progressivo e a melancolia fúnebre do Doom Metal, o Oceans of Slumber cativa àqueles que cruzam o seu caminho. Oriundos do Texas, a sonoridade da banda não lembra em nada aos esteriótipos do Sul dos EUA. A banda traz um álbum que já pode ser classificado, sem medo, como um dos melhores trabalhos do ano — mesmo que estejamos apenas em Março.

Vindos de um segundo álbum espetacular, Winter, que mostrou a voz de Cammie Gilbert ao mundo do Metal, os caras agora arriscam um novo caminho. Mais sombrio, emotivo e pesado que seu antecessor, The Banished Heart é capaz de fazer o metaleiro mais durão do recinto se acabar em lágrimas. As diferenças entre os dois trabalhos são claras, mas a identidade deles continua, o que faz do OoS uma banda de sonoridade única.

Primeira impressão

Uma breve introdução no piano abre o álbum, como um aquecimento. Não demora muito até que uma guitarra com distorção e peso descomunais quebre o clima sereno, num riff que é o carro chefe da música, e coloque algumas verdades na cara do ouvinte: esse disco não vai te deixar feliz. O abre-alas de The Banished Heart possui em todos os seus 9 minutos de duração um clima fúnebre e até mesmo macabro. O destaque vai ao refrão lento e arrastado, onde instrumentos e vocal caminham juntos na mesma sintonia.

“The Decay of Disregard” é o primeiro single do disco, lançado em dezembro do ano passado, e pegou os seus seguidores de surpresa. O motivo?: os texanos apresentaram uma proposta bem diferente em Winter, disco que deu ao Oceans boa parte dos fãs que eles têm agora. Algumas músicas seguem uma linha Doom, sim, mas não chegam perto do peso que “The Decay of Disregard” traz.

Novos horizontes

Não dá pra esperar muito pra elogiar o batera da banda: Dobber Beverly simplesmente arrebenta nesse disco. Em “Fleeting Vigilance”, Dobber destaca muito bem o ritmo da música, que de início é lento, porém com umas marcações bem definidas. Junto à isso, a angelical voz de Cammie segue doce e tranquilizante. Enquanto, mais tarde, o contraste dos guturais de Sean Gary emergem, deixando os fãs de músicas como “Winter” e “Apologue” muito felizes. Um equilíbrio perfeito com tudo aquilo que o Oceans já tinha apresentado à nós até então, só que com mais peso. O Doom está com força total.

Hora de não poupar elogios à Gilbert. A versatilidade que ela apresenta na terceira canção do disco, “At Dawn”, é de tirar o fôlego. Das notas mais graves às mais altas, Cammie conduz a faixa com maestria. Além disso, “At Dawn” possui reviravoltas impressionantes. Ela vai de compassos carregados e lentos à uma execução frenética, com pedais explodindo e baixo nervoso, em questão de segundos. Em contraposição, “The Banished Heart” vai mais fundo, e você é mais uma vez surpreendido com a profundidade do som dos caras. A música explora mais o piano e o uso de sintetizadores, e a voz de Gilbert brilha. Além disso, a faixa-título ganhou até um coral, deixando a atmosfera etérea, capaz de arrepiar os pelos do corpo todo. Confesso: eu chorei. Segue o baile.

O que esperar de um disco onde até um interlúdio é digno de algumas palavras? “The Watcher” é assustadora. Ela possui uma vibe “sideral”, onde os crescentes e decrescentes do sintetizador, único instrumento da música, dão uma certa agonia. Essa deve ser a primeira vez na vida que eu não reclamo de um interlúdio.

O progressivo não foi embora

Deixando um pouco o ar lúgubre, “Etiolation” coloca toda a bagagem dos músicos na mesa. Com compassos quebrados e ritmo mais acelerado, a sexta faixa é um pouco mais complexa, retomando a pegada progressiva que os caras tinham nos trabalhos anteriores. O destaque vai pro lead guitar, Anthony Contreras, que criou umas harmonias viajantes; e novamente pra Beverly, comandando as baquetas do Oceans of Slumber com muita responsabilidade.

“A Path to Broken Stars” deve ser a mais progressiva do disco. Dando continuidade à pegada da música anterior, ela também é mais acelerada, com direito à umas palhetadas na velocidade da luz. Que instrumental insano, aliás. A música tem um solo de deixar os entusiastas do Prog babando. E, novamente falando do vocal, Cammie apresenta uma visível evolução desde o seu primeiro trabalho com a banda. Muito mais versátil e com uma voz mais polida. Na sequência, “Howl of The Rougarou” é quase duas músicas numa só: a primeira parte remete a uma gravação caseira entre voz e violão, a segunda é a retomada do estilo do Lado A do disco, porém ainda na linha progressiva.

É pra chorar

Você achou que a primeira parte do disco era triste o bastante? Achou errado, querido metaleiro! Na reta final, “Her in the Distance” é outro interlúdio, onde o piano e o sintetizador trabalham juntos e criam uma atmosfera densa. E então, “No Color, No Light” se inicia lindamente. Onde The Banished Heart atinge o clímax da desolação. Ápice da tristeza e da melancolia. “No Color, No Light” é uma marcha fúnebre com um sentimento de adeus, o que explica muito bem a sua posição como penúltima canção do disco. A faixa é um dueto entre Cammie Gilbert e o vocalista do Evergrey, Thomas Englund, onde as duas vozes parecem um só lamento. P*ta que pariu, cara, essa música foi feita pra encerrar um disco!

Por fim, os americanos fizeram um cover de “Wayfaring Stranger”: uma música curta, de 3 minutos e pouco, que funciona como o último giro na maçaneta. A vibe dela me dá a sensação de ser uma retomada de “The Watcher”, quinta música do CD. Os sintetizadores seguem o mesmo semblante, porém dessa vez são acompanhados das lindas linhas vocais de Cammie e de algumas notas zangadas sobre o piano. Alguns momentos de euforia, onde os efeitos se intensificam, e então… A porta se fecha.

Coração banido

The Banished Heart nos apresenta um Oceans of Slumber mais maduro e, principalmente, mais direto ao ponto. Enquanto no álbum anterior as músicas eram todas muito boas, mas tinham atmosferas diferentes, o recém-lançado disco possui um grau de objetividade muito maior. Ele tem uma proposta desde o início. É um álbum “redondo”, onde todas as faixas conversam entre si e não dá vontade de pular nenhuma delas.

A banda sempre teve o intuito de ser melancólica. Em Winter, essa melancolia é meio nostálgica, como o fim de um verão. A melancolia de The Banished Heart é destrutiva, depressiva, é pra te jogar no fundo do poço. É aquela melancolia que sentimos numa noite fria, quando estamos solitários e à mercê de nossos pensamentos. É a melancolia que reflete os nossos desesperos mais profundos.

Sinceramente, eu ainda não sei dizer qual dos dois álbuns mais me agrada. Ambos entregam o melhor que podem naquilo que se propõem. E o mais interessante é ver uma banda com dois trabalhos tão diferentes, mas tão característicos, tão próprios. Enfim… Vocês não sabem como é bom dar 5 estrelas nessa resenha! E se eu pudesse, daria 6. Até a próxima obra-prima, Oceans of Slumber.

Confira o disco na íntegra no Spotify:
Gabriela Fernandes

Gabriela Fernandes

Carioca da gema, estudante de química e ouvinte apaixonada de música pesada. É a louca do metal progressivo e adora enaltecer as bandas favoritas na rodinha dos amigos. Seguidora de George R. R. Martin e admiradora de universos fantásticos em geral. Acredita que uma boa pizza resolve tudo.

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