Insect Ark “Marrow Hymns” Resenhas

Insect Ark “Marrow Hymns”

7 de Março de 2018 | Monique Monteiro

Avaliação:

 

A dupla Insect Ark imprime em suas músicas uma sonoridade que é difícil de categorizar. Na internet você poderá encontrar “experimental”, “cinematic”, “drone-doom”, e eu pretendo me ater a esses gêneros, principalmente porque acredito que se encaixem bem melhor do que outros que já encontrei.

Inicialmente, era um one-woman project da multi-instrumentista Dana Schechter (Bee and Flower, Michael Gira’s Angels of Light, Gnaw e que, morram de inveja, era amiga de Cliff Burton na adolescência) e, recentemente, a baterista Ashley Spungin (ex-Christian Mistress) se juntou, depois de participar como baterista de apoio dos shows.

O primeiro álbum, Portal/Well, bem como os EPs Insect Ark, Long Arms, Windless, ainda sem a participação de Ashley, apenas com Dana todos os instrumentos, é um “cinematic” drone/doom surreal e psicodélico que, por vezes, como eu já falei aqui, cria uma atmosfera lynchiana, sendo sombrio sem ser sobrenatural, puxando mais para os recantos obscuros de uma mente introspectiva e um pouco perturbada.

Após a entrada oficial de Spungin, a dupla lançou “Marrow Hymns”, seu segundo álbum, que difere um pouco do que foi feito anteriormente em Portal/Well. Aqui, o som que a dupla faz mescla o drone/doom “cinemático” com o sludge/post-metal, elemento que não estava presente no álbum anterior. Como Ashley e Dana vivem uma em cada ponta dos EUA, compuseram o álbum à distância, e se encontraram na reta final para ajustar as ideias e, finalmente, gravar, um processo que durou dezoito meses.

A faixa que abre o álbum é a hipnótica intro “Thelema”. Como muitos de vocês devem saber, “Thelema” é uma vertente ocultista baseada numa lei, de mesmo nome, desenvolvida por Aleister Crowley que diz “Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei. O amor é a lei, amor sob vontade”, e indica uma possível ligação da dupla com o ocultismo (mais pra frente, elas dão outra pista). “Windless” segue a mesma linha hipnótica e ritualística, mas com muito mais nuances por se tratar de uma faixa mais longa, e tem uma leve mudança de estilo do meio pro final.

Arp 9”, “In the Nest” e “Skin Walker” são três faixas mais sludge/post-metal e que evocam uma atmosfera de isolamento, desespero. A dupla relatou que, no processo de criação do álbum, passaram por momentos de crise existencial, e podemos verificar isso até pelos nomes da faixas: “Arp 9”, por exemplo, é o nome de um rifle; “In the Nestpode revelar o isolamento de uma pessoa em seu “ninho”. Já “Skin Walker” é, no folclore Navajo, um bruxo (ou bruxa, mas normalmente é homem) maléfico capaz se transformar em um animal, geralmente os que são associados à morte e maus presságios.

Slow Ray” volta pro drone/doom. Com uma linha de baixo pronunciadíssima, “Slow Ray” é a linha tênue entre a sanidade e a loucura. A cadência da música dá uma sensação de que você está na beira de um precipício emocional.

Sea Harps”, a faixa mais aclamada do álbum (e com razão), é psicodélica, com uma linha de guitarra que foi composta especialmente para parecer o canto sinistro de uma sereia, e deu certíssimo. Seguida de “Tarnish”, que segue o tom de horror em alto mar que “Sea Harps” iniciou (fico imaginando essas duas moças compondo um álbum inspirado pelo Cthulhu Mythos).

Daath” a última faixa do álbum, é um drone totalmente abissal. Na Cabala Judaica, existe a Árvore da Vida, e nela, “Daath” é uma Sephira oculta que representa o abismo entre a percepção dual e a percepção una (e vou parar porque isso vai longe e é um assunto que não cabe aqui, né?).

Marrow Hymns” combina peso e sentimento num álbum que, apesar de por se tratarem de faixas totalmente instrumentais, nos fala claramente sobre solidão, sobre cair no abismo profundo da existência, mas conseguir sair de lá. De andar pelos meandros abissais da mente em busca de respostas além do que podemos ver e tocar, de transcender a matéria e caminhar na linha tênue do Daath, abaixo do qual há o abismo, a matéria finita e acima, há o real. Além da morte, que está muito presente nesse álbum. E o ressurgimento, como a fênix que estampa a capa do álbum.

Monique Monteiro

Monique Monteiro

Historiadora aficcionada por História tardo-antiga e medieval. Adora cinema de horror, Tolkien, Lovecraft, Edgar Allan Poe e Arquivo X. Não consegue ficar sem música e brinca com todos os gatos que encontra.

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