45 anos de “The Dark Side Of The Moon” (Pink Floyd) Resenhas

45 anos de “The Dark Side Of The Moon” (Pink Floyd)

2 de Março de 2018 | André Luiz Oliveira

Avaliação:

No dia 1 de Março de 1973, há 45 anos, o Pink Floyd mudaria o rumo da música para sempre. Em seu oitavo álbum de estúdio, os britânicos trouxeram ao mundo uma verdadeira revolução musical, conceitual e estética. Intitulado The Dark Side Of The Moon, o disco é não só o mais aclamado da carreira do grupo, mas também uma das mais aclamadas produções culturais do mundo. Isso tanto é verdade que, desde que foi lançado, o álbum já recebeu diversas edições especiais, remasterizações e até um box especial com diversos CD’s e DVD’s apenas com conteúdo relacionado a ele.

Porém, as grandes perguntas são: O que faz deste álbum tão grandioso? Por que, mesmo após quatro décadas, este disco ainda é ovacionado e idolatrado? Para tentar descobrir, vamos embarcar em uma jornada através da história e das músicas deste grande e cultuado disco, buscando as inspirações e significados que ele tenta passar.

Vamos lá.

Antecedentes

Se formos buscar o exato momento em que o Pink Floyd começou a esboçar sua sonoridade característica, voltaremos para o início da década de 70, pois era desde a saída de Syd Barrett (ex-guitarrista/vocalista) que o Pink Floyd andava em direção a um som mais característico. A psicodelia e as improvisações dos primeiros discos foram gradualmente dando lugar a um som mais voltado para arranjos progressivos e conceituais, que culminariam em The Dark Side of the Moon. Como bem afirmou o tecladista Richard Wright: “Acho que todo álbum foi um passo em direção a Dark Side of the Moon. Estávamos aprendendo a todo tempo; as técnicas de gravação e as composições estavam ficando cada vez melhores.”.

Porém, o real ponto de virada foi o lançamento de Meddle (1971). Este foi o momento em que o grupo encontrou a sua verdadeira identidade. Em documentário, David Gilmour (guitarrista) comentou: “Meddle foi o momento em que nós descobrimos para onde estávamos indo. ‘Echoes’ (épico de 23 minutos que ocupa todo o lado B do disco), em particular, foi uma grande passo à frente para nós”. Roger Waters (baixista) complementa: “(Echoes) foi um movimento em direção a uma obra que fosse uma peça completa e mais longa”. Confira os depoimentos originais (em inglês) aqui.

Conceito

The Dark Side Of The Moon foi o primeiro disco conceitual do Pink Floyd. Sua proposta é abordar, por meio das músicas, as diferentes fases e pressões da vida cotidiana, desde o tempo e o dinheiro até a insanidade mental e a morte. Se hoje em dia esta proposta soa ambiciosa, imagine naquela época. Por trás desta ideia, estavam músicos em constante turnê e reflexivos com relação à vida.

Os detalhes são obscuros, mas sabe-se que a ideia deste conceito surgiu por volta de 1971, na casa do baterisa Nick Mason. Waters afirma que a ideia foi concebida apenas por ele, enquanto Mason sustenta a afirmação de que a proposta surgiu coletivamente e foi desenvolvida por todos os integrantes do grupo.

Música

Se o álbum já soa inovador em sua proposta conceitual, sua parte musical é ainda mais revolucionária. Colagens de sons, efeitos sonoros e uma alta dose de profissionalismo foram a fórmula de um registro que até hoje é visto como vanguardista.

O disco é composto por um total de dez músicas. Porém, o conjunto das faixas forma uma peça única e ininterrupta. Cada música que termina é emendada na seguinte por meio de transições sonoras muito bem colocadas, criando uma espécie de ciclo. Tendo em mente a sua proposta conceitual do disco, pode-se interpretar que esta é uma forma de representar a continuidade da vida e a constante presença dos temas abordados na esfera cotidiana.

A composição das letras ficou a cargo somente de Roger Waters, que passou a desempenhar o papel de letrista em todos os discos até a sua saída do grupo. Gilmour, em depoimento à Rolling Stone, disse que não se sentiu incomodado com este fato. “Nunca me considerei muito bom em escrever letras”, afirmou o guitarrista, “e Roger queria fazer isso. Foi uma sensação de alívio ver que ele estava disposto a fazer isso”.

Waters é também o integrante que assina a maior parte das composições musicais (sete músicas, no total). Porém, numa análise qualitativa, é Gilmour que toma a linha de frente da maioria das canções, com vocais precisos e solos antológicos. Sobre esta situação, o guitarrista comentou, também em depoimento para a Rolling Stone: “(o fato de Roger) ser o letrista e a força motriz não queria dizer que ele deveria ter controle completo sobre a direção musical das coisas. Sempre tivemos algumas tensões nestas áreas”.

Além disso tudo, há, em muitas passagens, a colagem de falas de pessoas. Para conseguí-las, Waters entrevistou e gravou diversas pessoas que trabalhavam no Abbey Road Studios. O baixista fazia perguntas relativas à existência, às experiências e ao cotidiano dos entrevistados, e depois incorporava as gravações nas músicas.

I – Speak To Me

O disco começa com as batidas de coração e a colagem de efeitos/sons de “Speak To Me”. Trata-se de uma breve introdução que insere o ouvinte no universo do disco, com a presença de sons que apareceriam em diversas outras músicas do álbum (os gritos de “The Great Gig In The Sky”, a máquina registradora de “Money”, e por aí vamos).

“Speak To Me” não possui uma letra, mas sim uma colagem de falas, daquelas gravadas por Waters:

“I’ve been mad for fucking years, absolutely years,
Been over the edge for yonks,
Been working me buns off for bands

I’ve always been mad, I know I’ve been mad,
Like the most of us, very hard to explain why you’re mad,
Even if you’re not mad”

Não há instrumentação nesta faixa, apenas um arranjo de efeitos creditado a Nick Mason. Anos mais tarde, no entanto, Waters afirmou que Mason não foi o único resposável pela composição da faixa, e que os créditos foram uma espécie de “presente”. De qualquer forma, a primeira faixa do disco é, acima de tudo, uma introdução. É quando o ouvinte entra de vez no universo do álbum.

II – Breathe

“Breathe” (originalmente intitulada “Breathe (In The Air).”) é a primeira música propriamente dita do álbum. Composta por Gilmour, Wright e Waters, é uma faixa suave e calma, e retrata os momentos iniciais da vida. São dados conselhos como “Look around, choose your own ground” (Olhe ao redor, escolha seu próprio chão) e “Don’t be afraid to care” (Não tenha medo de se envolver) e são feitas considerações acerca da natureza da vida e da existência como um todo.

É uma música calma e serena, com poucas variações. Diferentemente de sua sucessora, sobre a qual vamos falar a seguir.

III – On The Run

A suavidade de “Breathe” logo dá lugar ao passo frenético de “On The Run”. É uma música aparentemente sem sentido, composta basicamente por um sampling de um arranjo acelerado de sintetizador. A ideia de Ricahrd Wright, único compositor desta faixa, era criar uma peça musical que lidasse com as pressões das viagens. Os voos de avião eram recorrente da vida dos músicos, e isto deixava-os com extremo receio e até medo da morte.

Muitas passagens da música de fato se assemelham a sons emitidos por aeronaves. Desde o barulho que ouvimos quando um avião passa pelos céus acima de nossas cabeças até o som que estes emitem quando decolam. Ao final, um barulho intenso e ensurdecedor, simbolizando uma colisão aérea.

IV – Time

Como o título sugere, esta é uma música sobre o tempo. Ou melhor, sobre como ele passa e muitas pessoas não se dão conta. Veja, por exemplo, os seguintes versos:

“And then one day you find / Ten years have got behind you
No one told you when to run / You missed the starting gun”

(Tradução: E então um dia voce descobre / que dez anos ficaram para trás / Ninguém te disse quando correr / Você perdeu o tiro de partida).

A mensagem da letra é clara: viva a vida em sua totalidade. Não desperdice seu tempo com dias fúteis e monótonos pois, quando você menos esperar, muito tempo já terá se passado.

A música em si é um verdadeiro espetáculo de técnica e feeling. Desde a abertura singular com o som de diversos relógios, passando pela introdução misteriosa e finalmente caindo no arranjo bem ritmado e melódico, “Time” transmite uma gama de sensações e sentimentos, e por isso é uma das mais representativas do disco como um todo. Também merece destaque o solo de Gilmour nesta canção, discutivelmente um dos melhores de sua carreira.

Nos últimos momentos de “Time”, há uma reprise de “Breathe”, com a mesma melodia/harmonia, porém com uma letra diferente.

É uma das grandes favoritas dos fãs do Pink Floyd e uma das mais representativas da carreira do grupo, tanto que é tocada até hoje por David Gilmour e Roger Waters em seus respectivos shows solo.

V – The Great Gig in the Sky

Um momento único no disco. Composta pela tecladista Richard Wright, é uma faixa de certa forma instrumental, que aborda o momento da morte (o desespero inicial e, por fim, a aceitação). Por que “de certa forma” instrumental? Bem, esta é uma música que não possui letra, mas conta com um vocalize feminino que toma a linha de frente da canção.

A voz por trás da canção é de Clare Torry. A cantora lembra que não houve ensaio prévio antes da gravação, e que foram feitos apenas três ou quatro takes da música. Talvez por isso ela soe tão orgânica e sentimental. Richard Wright não poupou elogios à vocalista. Em documentário, o tecladista afirmou que estava “extremamente animado ao ouvir aquela voz incrível.” e termina dizendo que até os dias de hoje a música tem um grande efeito sobre ele, emocionalmente falando.

Quanto à temática, Wright também é bem claro: “(a música) é obviamente sobre a morte”. O vocal desesperado e sincero de Clare transmite muito bem essa sensação, criando assim uma obra intensa e, de certa forma, atemporal.

VI – Money

O dinheiro e as consequências de seu uso são o tema da próxima canção, apropriadamente intitulada “Money”. Com uma das linhas de baixo mais marcante do rock, esta faixa foi (e ainda é) o maior sucesso comercial do disco, e teve um crescimento exponencial nas paradas de sucesso em sua época de lançamento.

Versos como “Share it fairly but don’t take a slice of my pie” (Divida igualmente, mas não pegue uma fatia da minha torta) e “New car, caviar, four star, daydream / Think I’ll buy me a football team” (Novo carro, caviar, quatro estrelas, sonhar acordado / acho que foi comprar um time de futebol para mim) resumem bem dois aspectos muito criticados na música: a hipocrisia e a ganância, respectivamente. Ironicamente, a esta faixa proporcionou à banda um grande sucesso e, consequentemente, grande quantia monetária.

“Money” é também uma das duas músicas do disco a contar com um solo de saxofone, cortesia do instrumentista Dick Parry. Parry é amigo de longa data de Gilmour, fez parte do Pink Floyd até o fim da banda e ainda toca na banda do guitarrista.

VII – Us & Them

“Us And Them” é talvez a música mais forte e profunda em relação à mensagem que passa. É uma música sobre a guerra, sobre os dois lados de um conflito, “Nós” (Us) e “Eles” (Them). Traz a perspectiva daqueles que entram em conflito por pura obrigação e que não entendem o motivo de estarem ali , como colocado nos versos iniciais da música:

“Us and them 
And after all we’re only ordinary men. 
Me and you. 
God only knows it’s not what we would choose to do.”

(Tradução: Nós e eles / E depois de tudo, somos apenas homens comuns / Eu e você / Só Deus sabe que isto não é o que escolheríamos fazer).

Originalmente, esta faixa faria parte do filme Zabrieske Point, para o qual a banda estava compondo a trilha sonora. Porém a canção foi rejeitada e acabou sendo aprimorada e desenvolvida nas sessões de composição/gravação de The Dark Side Of The Moon. É até hoje uma das canções mais aclamadas do disco, tanto que dá nome à atual turnê de Roger Waters, “Us + Them”.

VIII – Any Colour You Like

Mais uma música instrumental, também composta por Richard Wright. Sua composição consiste basicamente em uma espécie de improvisação de teclado em cima de uma base. Por isso, esta faixa é conhecida não-oficialmente como “Breathe (2nd reprise)”. O título da música veio de uma frase que era sempre dita pelo gerente de turnê do grupo. Quando os músicos pediam uma guitarra para ele, ele replicava “de qualquer dor que você quiser, são todas azuis” (“Any colour you like, they’re all blue”).

IX – Brain Damage

Esta é a faixa que começa aquele que é o ciclo final  do disco. Como o título sugere, a letra trata da insanidade, de como um homem finalmente sucumbe à loucura após tantas experiências.  Após abordar tantas angústias em músicas como “Time” e “Us and Them”, o estágio final da vida tem início neste que é uma das grandes canções deste álbum.

Esta é também uma música sobre Syd Barrett. A loucura e a doença mental de Syd . Inclusive, uma das últimas passagens da música faz uma referência ao ex-membro. Trata-se do seguinte verso: “And if the band you’re in starts playing different tunes”. O verso se refere aos momentos em que Barrett tocava a música errada nos shows da banda, já em seus últimos dias no grupo.

X – Eclipse

O Grand Finale do disco é praticamente uma continuação da faixa anterior. Possui um arranjo ironicamente otimista, que vai crescendo conforme a música vai evoluindo. Por que “ironicamente otimista”? Pois, apesar de trazer uma atmosfera grandiosa, ela trata de um tema um tanto melancólico: o final de todas as coisas. Tudo pelo que lutamos, tudo o que construímos e amamos acaba.

Em suma: “Eclipse” não só fecha o álbum de forma gradiosa e épica, mas também é a síntese perfeita da proposta do disco. Todos os aspectos explorados nas outras faixas chegam a um fim, tudo converge para o momento em que “o sol é eclipsado pela lua” (“But the sun is eclipsed by the moon”). No final, o que vale é o que foi feito durante a vida, pois inevitavelmente todo o dinheiro, todo o tempo e todos os conflitos chegam a um final comum. É uma mensagem muito forte, e por isso é uma das músicas mais profundas e verdadeiras do álbum.

 

The Dark Side Of The Rainbow

“Coloque The Dark Side of the Moon para tocar após o terceiro rugido do leão da MGM no filme ‘O Mágico de Oz’ e você verá uma sincronia perfeita entre as músicas do disco e as cenas do filme”. Assim afirma uma das mais famosas lendas que circula no mundo da música.

Os membros da banda afirmam categoricamente que esta história não passa de um grande rumor. Porém, os fãs simpatizantes da teoria apontam que há uma série de coincidências impressionantes o suficiente para que a teoria seja levada a sério. De acordo com os simpatizantes, muitos trechos das letras e arranjos instrumentais casam perfeitamente com passagens do filme.

Bem, assista ao vídeo e tire suas próprias conclusões:

O Legado

Até os dias de hoje, The Dark Side Of The Moon permanece na lista de grandes sucessos comerciais da história. De fato, o disco ainda é um dos 30 mais vendidos de todos os tempos.

Mas o legado deste álbum vai muito além de seu sucesso comercial. As técnicas e composições do disco influenciaram uma gama imensa de artistas e músicos. Como exemplo, basta citar o álbum OK Computer (1997) do Radiohead, chamado por alguns de “o Dark Side Of The Moon” dos anos 90, devido à sua temática e sonoridade. Outro exemplo? Os americanos do Dream Theater já tocaram o álbum na íntegra em dois de seus shows. Se fosse citar cada uma das versões, tributos e homenagens que já foram feitas ao disco, este texto ficaria consideravelmente mais longo.

Por fim, respondendo as perguntas do começo do texto: The Dark Side Of The Moon ainda é uma obra idolatrada pois, mesmo tendo sido lançado há 45 anos, é um disco atemporal e que até hoje soa inovador. E, se posso fazer uma aposta, diria que permanecerá assim por muito tempo.

Line Up:

David Gilmour – Guitarra/Voz
Nick Mason – Bateria
Roger Waters – Baixo/Voz
Richard Wright – Teclado

Produzido por Alan Parsons.

André Luiz Oliveira

André Luiz Oliveira

Estudante de jornalismo, conheceu o metal aos 14 anos e desde então é apaixonado pelo gênero. Fã de carteirinha de Rush, Pink Floyd e Ghost. Quase nunca sai sem camisa de banda e é um grande admirador de livros e filmes de terror.

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