O que aconteceu com o metal nos anos 90? Opinião

O que aconteceu com o metal nos anos 90?

25 de outubro de 2017 | Gabriela Fernandes

Toda década tem um ou dois estilos musicais que se sobressaem. Nos anos 70, o punk era febre no Reino Unido e o rock progressivo teve seu auge com bandas como Pink Floyd, King Crimson, Genesis e Yes. Em 1980, o heavy metal alcançou notoriedade pelo mundo com a NWOBHM e o thrash metal da Bay Area lançou a música extrema às grandes mídias. Além disso, também nos anos 80, o hard rock e o glam chegaram com força com bandas como Guns N’ Roses, Motley Crue e Skid Row. De fato, a música pesada brilhou na década de 80. A maioria das bandas clássicas que ouvimos hoje surgiu ou decolou nessa época.

O período dos anos 80 foi onde bandas consagradas como Iron Maiden, Judas Priest e Dio lançavam obra-prima atrás de obra-prima. Dessa época, é quase impossível listar todos ou grande parte dos grandes álbuns. Mas só para termos ideia do poder do heavy metal, podemos mencionar alguns. Só do Maiden, podemos citar todos os discos desde The Number of The Beast até o polêmico porém aclamado Seventh Son of a Seventh Son. Os cinco trabalhos lançados de 1982 até 1988 são considerados por muitos como os discos da era de ouro da Donzela de Ferro. Além disso, temos Dio e a icônica bíblia do metal Holy Diver, além dos excelentes The Last in Line e Dream Evil. Mercyful Fate nos presenteou com Melissa e Don’t Break The Oath.

Judas Priest também conseguiu reconhecimento e fama mundiais com seus trabalhos. Apesar de já estarem ativos desde 1969, foi no auge da NWOBHM que os britânicos ficaram conhecidos como os deuses do gênero. Discos como British Steel, Screaming for Vengeance e Defenders of the Faith são essenciais na biblioteca de qualquer headbanger. Também oriundo da NWOBHM, Ozzy Osbourne já havia saído do Black Sabbath e agora decolava em carreira solo, lançando três masterpieces em sequencia: Blizzard of Ozz (1980), Diary of a Madman (1981) e Bark At The Moon (1983).

Ozzy Osbourne

Ozzy Osbourne na década de 1980

Também foi nesse espaço de tempo que o thrash metal explodiu nos EUA, mais especificamente na Bay Area (São Francisco). Além do sucesso do Metallica, Megadeth e Slayer – mais tardes apelidadas de Big Four ao lado do Anthrax – ainda podemos destacar desse movimento Exodus, Testament, Death Angel entre outras. Também foi a era do thrash metal alemão, levando ao sucesso bandas como Kreator, Sodom, Destruction, Holy Moses e Tankard. Alguns dos discos notáveis dessa época: Ride The Lightning (1984) e Master of Puppets (1986) do Metallica, Peace Sells… But Who’s Buying (1986) do Megadeth, Reign in Blood (1986) do Slayer, Among the Living (1987) do Anthrax, Bonded By Blood (1985) do Exodus, Endless Pain (1985) e Pleasure to Kill (1986) do Kreator, Agent Orange (1989) do Sodom, entre inúmeros outros.

Por que estou falando tudo isso se o foco é analisar o metal na década de 1990? Ora, porque é essencial entendermos como a nossa música andava na década anterior. A explosão do metal nos anos 80 foi um marco na indústria fonográfica. Até aqui, no Brasil, a música pesada se mostrou forte com a estreia do Rock In Rio em 1985, onde tocaram Scorpions, Ozzy Osbourne e Iron Maiden. E, é claro, outras bandas e estilos musicais foram nascendo e ganhando espaço nesse período tão importante na nossa história. Porém, tudo o que cresce exponencialmente, decresce exponencialmente. A fama do metal decaiu nos anos posteriores, dando visibilidade a um novo cenário musical e filosófico: o grunge. A música de Seattle inundou a MTV e as rádios, as jaquetas de couro foram substituídas pelas flanelas e a sonoridade agora era introspectiva. O que aconteceu com a música pesada nos anos 90, então?

Antes de tudo, precisamos, também, entender o que levou os clássicos do metal no período de 1990 a 2000 a decaírem tanto.

A década de 90 começou bem. Em 1990, Judas Priest lança Painkiller e Megadeth lança Rust In Peace, ambos considerados como os melhores de suas carreiras. O Slayer também não decepcionou, lançando o aclamado Seasons in the Abyss. O Metallica vinha crescendo de uma maneira absurda. Apesar de o famoso Black Album, de 1991, fugir do thrash metal convencional e puxar mais para o heavy, a banda alcançou níveis astronômicos de sucesso. Todos esses discos traziam violência, rapidez, energia e poder. Mas esses sentimentos foram se esvaindo e as clássicas bandas perderam a força.

Porém, também em 1990, o Iron Maiden dá a sua primeira pisada em falso. O disco No Prayer For The Dying não agradou a crítica, tampouco os fãs. Em 1992, mais uma tentativa falha: apesar de gerar o maior hit da banda, Fear Of The Dark decepciona. E assim, em 1993, a bomba estoura: Bruce Dickinson deixa o Maiden. Uma das maiores bandas de heavy metal da história perde uma das suas marcas registradas. Com isso, Blaze Bayley – com muita coragem, vamos admitir – assume o posto de frontman da Donzela de Ferro, mas não conseguiu dar conta da responsabilidade. Vamos ser sinceros, não agradou! Fã que é fã costuma gostar de todos os trabalhos do Maiden, até eu curto uma ou outra música do The X Factor, mas foi uma baita fase ruim pros britânicos.

Iron Maiden

Iron Maiden com Blaze Bayley

Após o sucesso estrondoso do magnífico Painkiller, outra notícia bombástica tirou a paz dos headbangers: Rob Halford deixa o Judas Priest em 1992. Depois de um hiato de cinco anos, os Metal Gods retornam com Tim “Ripper” Owens e seu álbum de estreia: Jugulator. As coisas não estavam assim tão ruins para Ronnie James Dio e sua banda, mas Lock Up The Wolves de 1990 não foi icônico como Holy Diver, The Last in Line ou Dream Evil. Apesar do baixinho ter conseguido se manter bem com Lock Up e o disco posterior, Strange Highways (1993), o disco de 1996, Angry Machines, foi um fracasso e é considerado até hoje como um dos piores da carreira do Dio. Só quem se deu bem foi o Mercyful Fate, que desbandou em 1985, mas retornou em 1993 com In The Shadows e, em seguida, o bem aclamado Time.

Bandas mais antigas, como Black Sabbath e Led Zeppelin, já vinham enfrentando problemas desde a década de 80. O Black Sabbath sofreu a perda de Ozzy Osborne e, em seguida, de Ronnie James Dio. O Led Zeppelin teve de lidar com a morte de John Bonham, resultando no fim definitivo da banda. O Deep Purple também esgotou as energias. Ian Gillain deixou a banda no início de 80 para se juntar ao Black Sabbath, retornou, saiu de novo no final da década… Sem mencionar a perda da força do hard rock e do glam, que tiveram a fama mais rápida que o punk nos anos 70.

Outra polêmica que assolou a cena headbanger nos anos 90 foi a desvirtuação do Metallica. A principal banda da Bay Area lançou, em 1996 e em 1997, os álbuns Load e Reload. Dois discos no mínimo controversos e que dispensam apresentações. O Megadeth seguiu uma linha parecida com a do Metallica. Em 1992, o grupo liderado por Mustaine lançou o Countdown to Extinction. Aclamado e criticado por igual, o grupo também abandonou a violência do thrash metal. Youthanasia (1994) e Cryptic Writings (1997) tiveram seus hits, mas em 1999 Dave Mustaine comete a infelicidade de lançar Risk.

Megadeth

Megadeth em 1999

Slayer lança o Diabolus in Musica em 1998, seguindo a onda do emergente nu metal, recebendo críticas duras sobre isso. O Kreator lança Outcast e Endorama também no final da década de 90, adotando o gótico e o industrial. Ozzy Osbourne, que estava em carreira solo desde a sua saída do Sabbath, também não conseguiu se safar. Ozzy lançou apenas dois álbuns nos anos 90: No More Tears, de 1991, e Ozzmosis, de 1995, sendo este último um dos maiores fiascos da carreira do Príncipe das Trevas. O Helloween, banda precursora do power metal que crescia exponencialmente em 1987, também perdeu seu frontman. Michael Kiske, depois de lançar dois álbuns muito criticados (Pink Bubbles go Ape, de 1990, e Chameleon, de 1993), deixa a banda. Além disso, os alemães ainda tiveram de lidar com a dura morte de seu baterista, Ingo Schwichtenberg.

Além de toda a desgraça que devastou a carreira dos gigantes do heavy metal por si só, o grunge de Seattle surge em 1990, tomando o controle total dos veículos midiáticos da época. E o resto da história você já sabe: o Pantera veio e salvou a música pesada com seu groove metal. Não nos leve à mal, todos nós reconhecemos a importância e qualidade dos texanos. Mas, espere! O metal não estava morto, o Pantera não precisava salvar algo que não estava precisando de ajuda.

Inúmeros subgêneros do metal nasceram na década de noventa, sendo a Europa o grande berço das novas bandas emergentes. Listamos todos os principais subgêneros, bandas e discos para te provar que os anos 90 foram bem melhores do que você pensa.

Death metal

O death metal surgiu no final dos anos 80, mas ganhou força mesmo na década seguinte. Os Estados Unidos foi o grande berço dessa nova vertente mais extrema, mais especificamente na Flórida. O death metal nasceu mesclando a rapidez e violência do thrash metal e o peso de bandas como Venom, Celtic Frost e até mesmo Mercyful Fate, consideradas pioneiras no estilo e filosofia black metal – apesar da sonoridade só ter tomado a forma que conhecemos hoje nos anos 90.

Principais bandas e discos:

Death: Individual Thought Pattern (1993), Symbolic (1995) e The Sound of Perseverance (1998)

Cannibal Corpse: Tomb of The Mutilated (1992)

Deicide: Deicide (1990) e Legion (1992)

Morbid Angel: Blessed Are The Sick (1991)

Obituary: Cause of Death (1990)

Death

Death

Black metal

Mais uma vertente extrema do metal, o black norueguês foi uma das maiores e mais conhecidas cenas musicais de todos os tempos. Além de um cenário fortíssimo e de incontáveis bandas do estilo, a Noruega também foi palco de outros inúmeros escândalos e crimes envolvendo o black metal. Vários assassinatos, incêndios a igrejas e até mesmo capa de álbum com um músico que acabara de suicidar-se.

Principais bandas e discos:

Mayhem: De Mysteriis Dom Sathanas (1994)

Burzum: Burzum/Aske (1993) e Filosofem (1996)

Darkthrone: Under a Funeral Moon (1993)

Immortal: Pure Holocaust (1993)

Emperor: In The Nightside Eclipse (1994)

Gorgoroth: Pentagram (1994) e Antichrist (1996)

Mayhem

Mayhem

Power metal

O power metal teve o Helloween como maior precursor em 1987 e 1988, com os fantásticos Keeper of the Seven Keys Pt. I e Pt. II. A Alemanha e a Finlândia foram os principais países a desenvolver o gênero na década de 90, mas essa vertente se espalhou por todo o mundo, incluindo o Brasil. O estilo mistura o heavy metal tradicional e a música erudita, abordando temas medievais, históricos e fantásticos em suas letras. O estilo credita Ronnie James Dio como maior influenciador, devido às temáticas que ele abordava em suas canções.

Principais bandas e discos:

Helloween: Master of the Rings (1994) e The Time of the Oath (1996)

Blind Guardian: Imaginations From The Otherside (1995) e Nightfall In Middle-Earth (1998)

Gamma Ray: Land of the Free (1995)

Stratovarius: Episode (1996) e Visions (1997)

Sonata Arctica: Ecliptica (1999)

Rhapsody: Legendary Tales (1997) e Symphony of Enchanted Lands (1998)

Angra: Angels Cry (1992) e Holy Land (1996)

Blind Guardian

Blind Guardian

Death/doom e gótico

O death/doom metal e o gothic metal ganharam força na segunda metade da década de 90. O estilo une a lentidão do doom criado pelo Black Sabbath aos vocais gritados e profundos do death metal. O gótico fez a mesma coisa, mas adicionava vocais líricos, corais e/ou instrumentos de orquestra em suas músicas. As canções eram melancólicas e falavam sobre temas introspectivos e pessimistas. O death/doom emergiu por toda a Europa, destaque para Reino Unido, e o gothic metal explodiu majoritariamente na Noruega.

Principais bandas e discos de death/doom

Paradise Lost: Shades of God (1992) e Draconian Times (1995)

Anathema: The Silent Enigma (1995)

Amorphis: Tales From The Thousand Lakes (1994)

Katatonia: Brave Murder Day (1996)

My Dying Bride: Turn Loose The Swans (1993)

Principais bandas e discos de gothic metal

Theatre of Tragedy: Theatre of Tragedy (1995) e Velvet Darkness They Fear (1996)

Tristania: Widow’s Weeds (1998) e Beyond the Veil (1999)

The Sins of Thy Beloved: Lake of Sorrow (1998)

Paradise Lost

Paradise Lost

Progressive metal

Por fim, o metal progressivo nasceu unindo o peso do heavy metal ao virtuosismo e técnica do rock progressivo. Influenciado pelas grandes bandas de prog rock da década de 70, nos anos 80 bandas de metal progressivo já começavam a surgir e moldar o gênero, como Queensrÿche e Fates Warning. Na década de 90, o Dream Theater surge esculpindo o gênero de vez e é considerada uma das maiores bandas de prog metal da história.

Principais bandas e discos:

Dream Theater: Images And Words (1992) e Awake (1994)

Ayreon: The Final Experiment (1995) e Into The Electric Castle (1998)

Symphony X: The Divine Wings of Tragedy (1997) e Twilight in Olympus (1998)

Pain of Salvation: Entropia (1997) e One Hour By The Concrete Lake (1998)

Nevermore: Dreaming Neon Black (1999)

Dream Theater

Dream Theater

Gabriela Fernandes

Gabriela Fernandes

Carioca da gema, estudante de química e ouvinte apaixonada de música pesada. É a louca do metal progressivo e adora enaltecer as bandas favoritas na rodinha dos amigos. Seguidora de George R. R. Martin e admiradora de universos fantásticos em geral. Acredita que uma boa pizza resolve tudo.

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