Venom: descaso com o Nervosa e fãs na América do Sul Opinião

Venom: descaso com o Nervosa e fãs na América do Sul

23 de outubro de 2017 | Amanda Dugin

Ontem, 22 de outubro, marcou a data da apresentação única do Venom no Brasil. O show, que fez parte da turnê do álbum From The Very Depths, aconteceu em São Paulo, no Carioca Club. O que muitos fãs não estavam esperando, no entanto, era que o dia que ficaria marcado como uma das apresentações mais esperadas do ano poderia se tornar uma decepção.

Toda a polêmica cercando o Venom começou no dia anterior. Antes de chegar ao Brasil, a banda passou pelo Chile para uma única apresentação e contou com a abertura da banda Nervosa. Por algum motivo ainda desconhecido, o vocalista e baixista Conrad “Cronos” Lant decidiu que o show do trio deveria ser encerrado faltando 20 minutos para o fim, fazendo com que a banda deixasse de tocar as quatro músicas restantes.

Apesar de ninguém saber o motivo dessa decisão repentina de Cronos, muitas pessoas começaram a especular na internet o que poderia ter acontecido. Faz sentido que ele tenha se sentido ameaçado ao ver que a banda estava “destruindo” no palco, o que pode ter feito com que Cronos decidisse encerrar o show para que o Nervosa não roubasse toda a atenção do público. Se esse for o caso, e talvez nós nunca saibamos de fato, essa foi uma atitude extremamente antiprofissional. Vindo de um frontman com mais de 30 anos de carreira, não há o que dizer senão lamentar a total falta de respeito tanto com os fãs que pagaram para assistir o show completo, quanto com a própria banda que ficou sem entender o que aconteceu.

A roadie do Nervosa, Beatriz Paiva Lino, escreveu um post no Facebook declarando toda sua frustração:

Fernanda Lira, vocalista e baixista do Nervosa, publicou uma pequena indireta em seu perfil no Facebook sobre o ocorrido. Na foto, ela está segurando um copo com bebida e a legenda (em inglês) diz: “Essa vai para as bandas que respeitam as set lists das outras bandas“. Confira abaixo:

Infelizmente, a decepção não parou por aí. No aeroporto, alguns fãs que estavam aguardando a banda chegar passaram por uma situação bastante desconfortável. Entre ofensas e até mesmo violência física, uma experiência que deveria ser memorável acabou se tornando de tal forma pelos motivos opostos. Ao invés de alegria e emoção, os fãs presenciaram humilhação.

Uma fã, que preferiu não ter o seu nome citado, estava no aeroporto e me concedeu o seu relato sobre o ocorrido na tarde de ontem:

“Eu cheguei cedo ontem no aeroporto de Guarulhos, totalmente empolgada em conhecer esse sujeito chamado Cronos. Ele faz parte da minha vida desde meus 13 anos de idade, mas até ontem, eu nunca tive oportunidade de conhecê-lo. Então era óbvio que a expectativa era grande.

“Ele chegou por volta das 13h com cara de poucos amigos, mas mesmo assim, eu e meus amigos fomos até lá cumprimentar um cara tão importante para nós. Ele foi extremamente seco, pisou no meu pé, viu que tinha pisado e fez força. Tirei meu pé e saí de perto. O povo foi atrás dele e eu fui também.

“Lá fora, o manager começou a gritar com a gente, como se fôssemos um bando de cachorros: ‘Vai pra trás, vai pra trás, vai pra trás‘. Falávamos para o Cronos tirar uma foto e o manager falava: ‘Cala boca, cala boca! Ele não vai tirar foto com ninguém‘. Então eu falei: ‘Eu esperei 28 anos para te conhecer, tira uma foto comigo, por favor‘. E ele respondeu: ‘F***-se, esperou porque quis‘. Fiquei estática. Junto comigo, tinha um amigo de Santa cruz de la Sierra. Ele tem um fã clube oficial do Venom e disse: ‘Eu vim de outro país para realizar meu sonho de te conhecer‘. O manager disse: ‘Ele também veio‘. Apontou para o Cronos e ele riu.

“Resolveram então atender. Sugeri que juntasse os três membros para tirarmos as fotos. Levamos soco do Cronos por tocar nele após a foto. Ouvi pelo menos dois amigos falando que ele bateu neles. Eu levei um soquinho dolorido no ombro, olhei na cara dele e me puxaram.

“Sabe quando você fica estática? Não acredita que isso aconteceu? Tenho foto com muitas bandas que eu amo e digo a vocês que sempre fui feliz em relação a isso. Nunca passei por tal constrangimento na minha vida! Vi várias pessoas falarem que não tem nada a ver correr atrás de artista. Essa solução foi para me conformar pelo fato de não ter dinheiro para ir aos shows. Eu gosto de fazer isso e tenho só boas histórias para contar. A musicalidade do Venom nada muda. Vi uns vídeos do show de ontem. O cara continua um monstro no palco. Vi que foi sensacional como sempre, porém, não me arrependo de não ter ido ao show. Cronos como pessoa é um lixo. Venom agora, só quero ouvir nos vocais do Demolition Man [Venom Inc.]”.

Não preciso ter que falar o óbvio, mas irei falar mesmo assim. Nenhum artista é obrigado a parar para falar com fã, tirar foto, dar autógrafo ou seja o que for. Mas fica claro que nessa ocasião, o Venom não teve nenhum respeito aos fãs e também às bandas menores que abrem os seus shows, como foi no caso do Nervosa.

É importante o artista sempre lembrar que fama e dinheiro são provenientes de seus fãs. São essas pessoas que compram os álbuns, camisas, ingressos para os shows e que ajudam a banda a crescer. Sem fãs, nenhuma banda seria capaz de sobreviver. É compreensível que nem sempre o artista esteja com disposição para atender o público, mas acredito que a sinceridade nesse caso era indispensável. Seria mais honrável dizer que não iria atender ninguém, do que preferir atender e maltratar os fãs de diversas formas possíveis – como até mesmo com violência física.

Nunca me considerei fã do Venom, entretanto – até os recentes acontecimentos – lamentava não ter ido ao show. Não estou aqui querendo dizer o que cada um deve fazer com a sua vida, mas acredito que em alguns casos, nós, como público, separamos a música do artista porque apreciamos a música em si, e não a pessoa que está por trás dela. Em outros casos, nem mesmo a música do artista merece ser ouvida. Dar ibope para pessoas como Cronos é continuar alimentando a sua arrogância, falta de respeito e profissionalismo. Daqui para frente, a única banda que existe é o Venom Inc.

Amanda Dugin

Amanda Dugin

Começou a ouvir metal aos 13 anos e desde então não quer saber de outra vida. Planeja espalhar a palavra do Djent por este país. Apaixonada por livros, séries e HQs. Acredita em teorias da conspiração mais do que deveria. Considera a escrita uma forma de terapia tanto quanto a música.

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