São Paulo Trip: Guns n’ Roses (26/09/2017) Por dentro do Mosh Pit

São Paulo Trip: Guns n’ Roses (26/09/2017)

28 de setembro de 2017 | Raul Kuk

A ideia de trazer alguns dos principais nomes do Rock in Rio para São Paulo em um mini-festival, batizado de SP Trip, foi brilhante. Shows lotados, fãs satisfeitos e muita empolgação em todas as noites. Claro que nem tudo são flores: os reviews do show do Guns n’ Roses no Rock in Rio tornaram a tarefa de assistir a banda no SP Trip um “investimento de risco”. Depois de uma folga de duas semanas, a voz de Axl teria deixado a desejar no primeiro show, que foi transmitido pela TV, e ninguém sabia o que esperar da apresentação em solo paulista. Ingresso comprado, o jeito é encarar o festival.

A primeira banda a subir ao palco foi Tyler Bryant and the Shakedown, mais conhecida por ter o filho do guitarrista Brad Whitford (Aerosmith) em sua formação. Mas o destaque é o vocalista/guitarrista Bryant, carismático e simpático com o público, que correspondeu de maneira animada. O set foi curto, com músicas que pudessem levantar o público e, assim, evitar vaias ou uma chuva de objetos indesejados. O hard-blues-rock da banda caiu como uma luva no gosto dos presentes.

O Teatro do Horror

Alice Cooper subiu ao palco com toda a classe de um veterano que sabe que tem não só sua banda mas também o público nas mãos. Sua prolífica carreira permite uma variação gigante de repertório, mas sem deixar os grandes clássicos de fora. A abertura com “Brutal Planet” foi apenas o pontapé inicial para a sequência de hits que incluiu “No More Mr Nice Guy”, “Under My Wheels” e “Billion Dollar Babies”. Foi quando chegamos a um dos melhores momentos da noite.

“Halo of Flies”, um clássico obscuro do álbum Killer, de 1973, flerta com o progressivo, enquanto sua letra brinca com clichês de antigos filmes de James Bond. Sua banda mostrou muita competência nas intrincadas (e longas) passagens instrumentais, fazendo um “lado B” brilhar tanto quanto qualquer single. A música é um massacre. Eu já vi Slayer ao vivo, já vi Megadeth, Motörhead, Twisted Sister… Mas não lembro de nada tão pesado quanto a versão de “Halo” dessa formação.

Still gorgeous!

Foi o aviso para o começo da parte teatral do show. Alice é eletrocutado e transformado em monstro durante “Feed My Frankenstein”, espanca uma manequim em “Cold Ethyl”, mata uma mulher em “Only Women Bleed” e é decapitado ao final do medley “Killer/I Love the Dead”. Ele ainda voltaria para “I’m 18” antes da participação especial de Andreas Kisser em “School’s Out”.

A educação e gentileza de Alice com o público (em qualquer show, em qualquer lugar do mundo), é um capítulo à parte. Ninguém chega a meio século de carreira sendo indiferente aos seus fãs – ainda que ele tenha, por diversas vezes, tomado rumos errados em sua carreira ou vida pessoal. Mas, como qualquer ser humano, Alice aprendeu com os erros e os lapidou. Como apenas os grandes conseguem, tornou-se uma lenda em vida.

Not in this Lifetime

Chegou a hora da atração principal.

Depois de todas as críticas ao show no Rio de Janeiro, era compreensível que Axl Rose tentasse fazer um show mais curto e sem forçar tanto a voz. Mas, desde 1986, ninguém diz a Axl o que fazer. O show de três horas de duração não apenas começou pontualmente no horário marcado como também foi mais que suficiente para calar críticos e acalmar fãs.

São Paulo Jungle!

“It’s so Easy” e “Mr Brownstone”, que completaram trinta anos de seu lançamento recentemente, começaram a experiência incomparável de ver Axl, Slash e Duff juntos no palco. “Chinese Democracy” mantém a força da banda ao vivo, mas é na quarta música, “Welcome to the Jungle”, que qualquer público fica em êxtase. As explosões no palco marcaram território, uma declaração de guerra em que todos ali sairiam vencedores. Se alguém tinha dúvidas da dedicação de Mr Rose aos seus fãs brasileiros, elas acabaram aos gritos de  “You’re in the jungle, São Paulo!”

Axl Rose

(Nota: nada como estar em um show com amigos. Tive a felicidade de encontrar meus trutas Rodrigo Salamandac e André Lessa, o que são mais boas lembranças pra guardar dessa noite mágica. Cheers, mates!)

Daí pra frente, é impressionante notar como uma banda que lançou poucos discos tem um repertório tão forte para apresentar ao vivo. Com pequenas mudanças em relação ao Rio, eles vieram com “You Could be Mine”, “Live and Let Die”, “Estranged”, “Rocket Queen” e a surpresa “Used to Love Her”, que não vinha sendo executada com frequência. Claro que, entre músicas como “My Michelle” e “Coma”, havia espaço para músicas mais tranquilas, como “Yesterdays” e “This I Love”. A ferocidade na voz de Axl explode em “Civil War”, aquele seu jeito característico de cantar com fúria e com o coração, quase como se estivesse chamando pra briga, mostrou que o “drive” de sua voz ainda podia comandar o espetáculo. Mas ele não era a única atração.

Só existe um Slash

Eu sou fã do Guns n’ Roses e, quando Slash saiu da banda, eu continuei os acompanhando mesmo com todas as mudanças de formação. Fui bastante indiferente às carreiras dos ex-integrantes, mesmo tendo ouvido alguns discos. Nesse período, Axl contou com pelo menos quatro guitarristas tecnicamente superiores ao da cartola: Robin Finck, Buckethead, Ron Thal e Dj Ashba. Mas é quando você vê Slash no palco executando o tema de “The Godfather” é que você percebe a importância dele. Não é pela técnica, pois guitarristas melhores podem fazer o que ele faz, nota por nota, e até melhor.

The Godfather of Rock and Roll

É a química que ele tem com aquelas músicas. A aura que ele emana no palco ao lado de seus velhos companheiros. A conjunção planetária quase impossível de um guitarrista que já morreu de overdose por alguns minutos, trilhou carreira solo, teve suas bandas e, mesmo quando poucos ainda acreditavam, voltou para o lugar que é seu de direito. O Guns n’ Roses poderia até continuar sem ele – mas é uma banda menor. Ouvir ele tocando “Sweet Child o’Mine”, mesmo depois de tantos anos, é uma experiência incomparável.

Chuva de Balões

Durante “November Rain”, uma homenagem dos fãs brasileiros que já se tornou tradição nos shows por aqui, a “balloon’s rain”. Idealizada por Cá Tabarin, administradora do Fã Clube https://www.facebook.com/groups/gnrclassicoeatual/ , a “balloon’s rain” é um dos momentos mais emocionantes do show, um presente dos fãs em uma das músicas que, mesmo sendo uma balada, levanta qualquer público. Eu encontrei a fofa Lays Bueno, que me arrumou um balão (eu estava sem o meu, fã relapso) e coordenou a homenagem com muita simpatia.

Lays Bueno e eu

Os balões, no caso, representam as rosas no nome da banda. Durante os anos 90, ao final dos shows, Axl costumava jogar algumas rosas para a plateia, gesto que ele não repetiu mais. Como é impraticável entrar com flores em uma arena de shows, a ideia foi homenagear a banda de maneira singela e significativa, com as luzes dos telefones celulares iluminando balões vermelhos. Visualmente, o efeito é lindo. É quando a banda pode sentir um pouco do que nós, os fãs, sentimos ao vê-los no palco entre fogos, luzes e telões de alta resolução. Não poderia ser num momento mais apropriado.

Balloon’s Rain

November Rain não é apenas uma das grandes músicas do GnR, mas também um clássico do rock. As imagens no telão, os solos de guitarra, variações rítmicas, piano… Tudo funciona como uma experiência única para o público. Depois disso, fica difícil surpreender, mas o Guns sempre tem mais cartas na manga.

O Coração da Banda

Uma coisa que a gente percebe enquanto eles correm de um lado para o outro no palco é a tranquilidade de Duff McKagan. Está em casa de novo, mesmo tocando as músicas novas, mesmo interagindo com músicos bem mais jovens. Os anos lhe fizeram muito bem: experiente, maduro e muito competente em cada tarefa sob sua responsabilidade, seja tocando o baixo ou cantando, foi o “diplomata” responsável pela reaproximação de Axl e Slash. Mas mesmo com as ausências de Izzy e Steven Adler, é difícil pensar no Guns n’ Roses sem Duff. Axl pode ser o cérebro e Slash, as bolas, mas os fãs devem muito a Duff por momentos como esse. “Attitude”, cover do Misfits que ele canta, diz muito sobre quem ele é.

Duff McKagan

E se é de uma banda acostumada a surpreender que estamos falando, “Wichita Lineman”, de Glen Campbell, “Black Hole Sun”, do Soundgarden, e “I Got You (I Feel Good)”, de James Brown, chegam para mostrar que eles ainda não têm medo de nada. “Knockin’ on Heaven’s Door” sempre cativa o público e “Nightrain” é (mais) uma explosão de selvageria e força.

Vivi pra ver essa cena

Claro que não era o fim. “Don’t Cry”, “Patience” e “The Seeker”, cover do The Who, preparam a plateia para a apoteótica “Paradise City”, com direito a muitos fogos e aquela química perfeita entre a banda e seu público. O Guns n’ Roses se sente em casa em São Paulo, ama o Brasil e demonstra isso em cada verso, em cada nota. É impressionante como a banda ainda consegue monopolizar as atenções: os fãs não falam em outra coisa, mas quem não gosta também não para de prestar atenção. O reconhecimento por tudo que conquistaram é uma demonstração de sua força e relevância no cenário da música – incomodar tanto é a prova de que continuam no caminho certo.

Raul Kuk

Raul Kuk

Escritor de coisas, degustador de quadrinhos, sommelier de cinema, comensal de música. Um Time Lord de 400 anos, é pai de uma pequena e encantadora khaleesi.

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