Conheça a Heavy Metal Online Opinião

Conheça a Heavy Metal Online

11 de setembro de 2017 | Augusto Pacífico

Dentro do mundo obscuro e complexo do heavy metal underground, nenhum jornalista anda com tanta naturalidade quanto Clinger Carlos. Ele e sua equipe produzem mensalmente um programa em estilo documentário que explora diversos temas ligados ao cenário underground nacional: o Heavy Metal Online. O canal fez aniversário de 5 anos recentemente. Com apenas uma câmera de mão e a vontade de falar sobre metal, essa galera já fez 77 programas entre discussões, entrevistas, coberturas de shows e sugestão de bandas.

Tive a oportunidade de conhecer o Clinger durante o Roça ‘n’ Roll este ano. Por acaso minha cidade é a apenas 100km da dele e fomos ao festival na mesma van. O estilo simples e um tanto amador do seu trabalho dá um gosto especial para a produção. Ele se preocupa em contar sobre a própria história com o heavy metal, o que dá um tom intimista para as discussões. O discurso dele em seus vídeos é exatamente o mesmo que numa conversa informal. Tudo isso com aquele sotaquezinho mineiro que tenho certeza todo mundo que não é daqui acha engraçado.

Sendo eu também redator de conteúdo da área, o que mais me impressiona no Clinger é a sua franqueza em tratar de temas polêmicos. Como exemplo cito o programa nº75, em que faz uma análise da situação do underground nacional e não deixa de tecer críticas construtivas à desunião infelizmente ainda muito presente no meio. Não fala sempre por conta própria também, no episódio nº69 trouxe a discussão dos downloads ilegais sob a ótica de uma dúzia de bandas diferentes, explorando a pluralidade de questões relacionadas ao tema. Neste sentido não posso deixar de falar do documentário “O mal que nos faz“, este sim debate essencial sobre a questão do white metal, tratado com muita seriedade.

A maior contribuição do Heavy Metal Online para a cena é, sem dúvida, a quantidade de sugestões de bandas presentes em todo documentário. A nossa redatora Stephany Nusch já citou o programa da HMO sobre o levante do metal nativo no seu texto e isso é só parte da história. Todo vídeo sugere tantas bandas novas que garanto que você vai ficar sobrecarregado de música para ouvir rapidamente.

Bom, poderia ficar o dia inteiro sugerindo programas da Heavy Metal Online para todo tipo de coisa, mas por que não ir direto à fonte? Contactei o gigante Clinger Carlos pelo facebook para algumas perguntas, confira a seguir:

Clinger Carlos apresentando o Heavy Metal Online

Clinger Carlos apresentando o Heavy Metal Online

Entrevista com Clinger, criador da Heavy Metal Online

Headbanger Mind: Primeiramente, parabéns pelos cinco anos de programa, um dia a gente também chega lá! Olhando para trás, Qual é o seu documentário favorito, aquele que todo mundo deveria ver e por que?

Clinger Carlos: Por mais que o documentário, “O Mal Que Nos Faz” rendeu muita polêmica e muitas reflexões dentro da cena nacional, posso te dizer que o meu primeiro documentário foi o mais importante pra mim, ele se chama “O Homem e a Obra” e coloca em cheque a questão do homem ser na vida real aquilo que ele retrata em suas letras. Isto se tornou um ponto muito discutido entre os headbangers com o passar dos anos, pois antes não se falava muito disto, nem se tocava nestes pontos dentro da cena. Daí em diante percebi que se começasse a colocar em meus vídeos todas aquelas percepções e dúvidas que eu tenho dentro do heavy metal eu poderia agregar ou fazer as pessoas refletirem a respeito de assuntos nunca antes discutidos. E isto vem dando certo e venho obtendo um resultado positivo, pois tive um crescimento bom nos últimos anos com meu canal. O interessante é a forma que meu público consome o conteúdo, isto é, assistem até o fim e sempre comentam e compartilham, pois sei quem são todos que me acompanham mensalmente.

O interessante disto é que hoje tenho em torno de 8 mil inscritos e meus vídeos dão 4 mil views mensais, isto é, aproveitamento de 50%. Vejo canais que tem muito mais inscritos que eu e não têm o número de visualizações que tenho. Meu programa é um conteúdo pesado, específico, vídeos com mais de 40 minutos, isto não é pra qualquer um ver e sim quem realmente se interessa pelo metal brasileiro e pelos conteúdos que produzo.

HM: Que dicas você dá para quem está começando nesse projeto de fazer mídia independente sobre heavy metal no Brasil?

CC: Não espere retorno, não espere reconhecimento, não espere aplausos, não espere ganhar prêmios, não espere ser reconhecido por pessoas da cena. Faça tudo pela obra, pelas bandas, pelos eventos, pelos lançamentos e siga firme com suas ideias e tenha continuidade. Sempre falo da arte da continuidade, sempre ir com seu objetivo até o limite do limite. Se você desistir nos primeiros vídeos, achando que deram poucos views ou que seu blog não teve muito alcance, você irá ser vencido pela sua ideia de achar que não está fazendo a diferença, mas se produz algum conteúdo você está. Dentro do metal nacional se você produzir um conteúdo e uma pessoa conhecer uma nova banda através dele você já fez a diferença. No momento que estamos vivendo na cena temos que lutar passo a passo, não podemos achar que seremos popstars com conteúdo heavy metal. Estas são minhas dicas.

HM: O que você acha que mudou na cena nestes cinco anos? E os próximos cinco, como você acha que mudará?

CC: Depois que eu comecei a produzir o programa e o facebook invadiu de vez a cena, senti que um monte de coisa que antes não prejudicava o cenário, agora vem prejudicando, porque os headbangers estão confusos com o tanto de conteúdo que gira na rede social e eles querem trazer tudo isto para dentro do heavy metal. Brigas políticas, bate boca sobre religião, sexualidade, problemas pessoais de músicos e headbangers, tudo isto veio pra dentro de uma cena que antes não era totalmente unida, mas pelo menos pensávamos na mesma direção. Agora a coisa pirou de vez, banda do sudeste que não toca mais no nordeste, uma briga que acontece em São Paulo e o Brasil inteiro entra na confusão sem ser chamado, banda cover versus banda autoral, as acusações de envolvimento religioso de músicos que perante alguns não podem estar na cena e por aí vai a confusão toda. Então por mais que as redes sociais vieram para ajudar na divulgação, ao mesmo tempo elas trouxeram estes maus que prejudicaram muito nos últimos anos.

Já para os próximos anos eu não estou sendo pessimista, mas não vejo que muita coisa vai mudar. Acho que pelo que estou vendo hoje nas atitudes das pessoas nas redes sociais a coisa vai ficar bem pior. Sabe por que acho isto? Porque não vejo ninguém querendo mediar nenhuma conversa, nenhum discurso, vejo todos querendo dar opiniões e acusar o outro. Não vejo ninguém se abstendo de bate boca, pelo contrário, vejo nego entrando na rede social somente para quebrar o pau. Então estou bem desanimado neste ponto.

Mas por outro lado vejo coisas boas para os próximos anos, como bandas corajosas e com muita garra pegando ônibus e rodando país, descobrindo novas cidades, novo público, vendendo seus CDs e camisas, como é o caso do Nervochaos, Torture Squad, Hatefulmurder, dentre outras. Temos também agências de booking que gerenciam tudo isto como o Restless Booking, Spread Freak e meu amigo Káka da Xaninho Discos. Tudo isto contribui, renova e descobre coisas novas. Não é para qualquer um não, mas vejo que o caminho é este, trabalho duro e com o tempo tudo se renovará.

HM: Que bandas você tem ouvido? O que te dá mais vontade de bater cabeça ultimamente?

CC: Como sabe eu recebo muitos materiais de bandas nacionais e escuto todos, tem muita coisa boa sendo lançada e vou citar alguns que recebi ultimamente, como o trabalho do Warage, Cracked Skull, Escarnia e ainda ótimas bandas com contextos históricos em suas letras como o Cangaço, Arandu Arakuaa e Hate Embrace. É muita coisa boa sendo produzida no Brasil e precisamos fazer com que as pessoas conheçam estas bandas, por isto sempre produzo meu programa colocando um pouco do som de cada uma delas para despertar o interesse das pessoas.

Mas eu sou bem eclético, escuto muita coisa além do heavy metal, como as bandas pop dos anos 80, como o Tears For Fears, A-ha, Alphaville e também as nacionais que conheci no final dos anos 80, como o Ira, Engenheiros do Hawaii, Camisa de Vênus, Velhas Virgens, etc. Pode ver que escuto bastante coisa diferente (risos).

Augusto Pacífico

Augusto Pacífico

Nascido no leste de Minas Gerais e com o coração em Brasília. Ávido explorador das formas mais variadas de música, com preferência pelo lado lírico do heavy metal. Estuda psicologia há tempos demais e ainda tem muito pela frente. Apreciador de botecos gourmet e pocilgas cavernosas. Tudo que precisa é de uma cerveja na mão e uma boa companhia.

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