Babymetal, Five Fox Festival e a cultura “Idol” Opinião

Babymetal, Five Fox Festival e a cultura “Idol”

15 de Maio de 2017 | Augusto Pacífico

Adolescentes, coreografias j-pop e…metal?

Conhece Babymetal? Não?

Bom, melhor do que eu ficar explicando, veja este vídeo aqui:

Bizarro, né? Pois então, trata-se de uma banda que mistura as “idol bands” do j-pop com heavy metal. Essa banda causou um alvoroço em 2014 com o lançamento do seu primeiro álbum, impulsionado pelo fenômeno dos vídeos de reação (e, por sua vez, impulsionando a popularidade destes vídeos). De lá pra cá já abriram shows tanto para Lady GaGa quanto para o Red Hot Chilli Peppers, cantaram com Rob Halford e tiveram participação do guitarrista da Dragonforce no seu segundo disco. Apesar disso, ainda causam muita polêmica no meio metal, inspirando discussões intermináveis entre legiões de fãs e de haters.

Este texto não pretende discutir em profundidade isso, eu sou da opinião que Babymetal é incrível! Divertido e contagiante, traz uma energia muito difícil de se encontrar nos nossos covis escuros. Os debates vão continuar para sempre, claro, mas depois do segundo CD e da turnê mundial acredito que as meninas provaram que tem poder para fazer parte da nossa cena como qualquer outra banda de gente adulta e mal encarada.

Quando vejo artigos da mídia Heavy Metal ocidental, fico feliz de ver muitos defensores, mas percebo também uma superficialidade. Claro, seria estranho esperar que jornalistas especializados em heavy metal se preocupassem em entender a fundo qualquer coisa sobre J-pop e a chamada cultura “idol”. Sejamos honestos, eu também estava feliz em falar que é “coisa de japonês” e “eles são estranhos assim mesmo”. Mas aí as garotas anunciam a seguinte tour:

Pois é, como que para trucar as suas expectativas de estranheza, durante Julho e Agosto a Babymetal vai tocar shows com certas restrições, que são: shows apenas para homens, apenas mulheres, apenas adolescentes, apenas crianças e idosos, ou que é obrigatório o uso de corpse paint. Pra começo de conversa, se qualquer banda consegue encher estádios com um público tão específico, essa banda é o Babymetal. Os shows delas frequentemente geram encontros entre crianças e adultos, homens e mulheres, metaleiros e otakus, e qualquer outra coisa nesse meio.

Agora, não é nenhum exagero imaginar que a primeira coisa que vocês mentes poluídas pensaram quando viram esta programação de shows foi algo do tipo: 18 de julho = noite dos pedófilos. E sim, não nego de forma alguma que há algo muito suspeito num trio de garotas de 17 e 19 anos (12 e 14 quando começaram) vestidas de saias rodadas assustadoramente altas e cabelos presos à là Maria-Chiquinha. Diferença cultural nenhuma elimina a fascinação nojenta da nossa sociedade de infantilizar mulheres ao mesmo tempo que as objetifica. Isso é óbvio. Bom, não fiquei satisfeito com essa conclusão, então decidi pesquisar mais à fundo. Portanto, coloque suas orelhinhas de gatinho e entre comigo no poço sem fundo de WTF que é a cultura “Idol” que inspirou a Babymetal.

Cultura Idol Japonesa

Começando nos anos 70, mas tendo sua verdadeira era de ouro nos 80, grupos “idol” são formados majoritariamente de garotos ou garotas jovens – apesar de algumas exceções curiosas – cujo maior atributo é ser “Kawaii” (algo como “fofinho”). Idols em potencial não precisam ser particularmente criativos, nem exímios cantores, o mais importante é que consigam dançar as coreografias estilo Dance Dance Revolution e manter um sorriso no rosto sempre. Os idols são criações não de artistas apaixonados por música, mas por produtores embasados em pesquisas de marketing focadas em fazer algo o mais inofensivo possível para atingir plateias diversas e maximizar vendas. Há uma necessidade para que os artistas sejam exemplos de comportamento impecável: Idols não podem beber, fumar, comer demais, namorar ou sequer falar palavrões. Há um controle constante da mídia e fãs para que eles mantenham um ar de uma suposta “pureza”.

Um exemplo drástico desse controle aconteceu quando uma das membras do maior grupo pop do Japão – o AKB48 – após ser descoberta cometendo o terrível crime de sair num encontro com um homem, cortou o próprio cabelo em um tradicional gesto de desculpas aos fãs e banda. A justificativa para a existência desse controle é que elas não devem quebrar a “ilusão” dos fãs. Desde então o tratamento das estrelas idol tem sido discutido com seriedade, e parecem haver melhoras. Ainda assim, se você acha que é o único que pensou que a ilusão alimentada nestes casos é que elas podem ser suas, como em um pervertido conto de fadas, pense de novo! Pois é exatamente isso que o grupo tenta vender.

O AKB48 é um grupo Idol que inicialmente contava com 48 garotas, e hoje já ultrapassa 130. Todas com idades entre 12 e 25 anos  Criado com a ideia de “Idols que você pode conhecer”, a banda se organiza em vários grupos menores para poder se dedicar a shows constantemente, além de fazerem os curiosos eventos de aperto de mãos. Uma variação do “meet and greet” cujos ingressos são distribuídos com a compra do trabalho mais recente das garotas. Mais cópias aumentam a chance de passar mais tempo com elas. Isso não apenas infla artificialmente as vendas de CD’s, mas faz com que boa parte das pessoas que comparecem a esses eventos sejam fãs – homens, em sua maioria – desesperados por algum tipo de contato, possivelmente alimentando uma ideia de que as cantoras lhes devem alguma coisa pelo sustento que a compra do seu trabalho permite. Nenhuma situação exemplifica melhor este problema do que quando um fã atacou as meninas em um desses eventos de aperto de mãos. Desde então a segurança foi reforçada nestes ambientes, e os fãs precisam passar por um detector de metais antes de ter contato com as cantoras.

O que a Babymetal tem a ver com isso?

Eu adoraria ficar aqui falando sobre as várias questões que advém ou se alimentam dessa cultura. Homens herbívoros, a busca patologizante de perfeição, a música se reduzindo a números na conta de executivos e a objetificação de adolescentes, por exemplo. Mas o Babymetal é o foco desse texto. Além do mais, admito que não sou o público alvo de bandas como a AKB 48, nem entendo a cultura japonesa em primeira mão, não posso dar muito mais do que algumas opiniões distanciadas. Nós já temos coisas fodidas o suficiente na nossa cultura pra ficar cuspindo na dos outros. Se quiser se enfiar no mesmo redemoinho que eu, deixo aqui, aqui e aqui algumas sugestões de leitura que certamente vão te deixar em alguma lista de suspeitos da polícia federal.

Pois bem, agora que entendemos o que é o “kawaii” do kawaii metal de Su, Yui e Moa Metal, vale dizer que originalmente a banda Babymetal era só um projeto do grupo Sakura Gakuin, que faz um j-pop mais tradicional. Inicialmente algo como um projeto paralelo, a banda se tornou grande o suficiente para transpor as barreiras do grupo Idol. No início, as meninas nem sabiam o que era heavy metal, os membros da banda que as acompanha (a Kami band) eram apenas atores que performavam por cima de um playback, e eram intercambiáveis. Hoje temos uma formação fixa. Por esses elementos fica claro que a Babymetal passou por algumas alterações à medida que foi ganhando atenção internacional. As raízes da cultura idol estão lá, mas o babymetal já é um monstro diferente.

É verdade que as cantoras escreveram muito pouco do que elas cantam, mas por trás do show existem mentes talentosas tentando estender seu alcance musical. O abismo entre o mainstream e o underground no Japão faz com que muitos artistas sejam forçados a emprestar seus talentos para diversos projetos, para conseguirem se manter. Um desses produtores esquecidos da Babymetal mas consagrados no Japão é Yuyoyuppe. Com referências que vão do EDM a Protest the Hero, Yuyoyuppe tenta evocar algo nas canções do Babymetal que seja em igual medida obscuro e emotivo. Ele dá um rebuscamento nos riffs da banda, que podem passar despercebidos por trás da roupagem adolescente.

Babymetal já provou o suficiente que chegou pra ficar. Diferente de outras bandas, duvido que haverá uma troca por vocalistas mais novas quando Su, Yui e Moa “se aposentarem” após uma certa idade. A música é mais importante para a banda do que a manutenção da imagem adolescente. Elas também não fazem sessões de apertos de mão, nem clipes de biquini, nem tem suas vidas pessoais controladas e divulgadas no mesmo nível. O Five Fox Festival é uma jogada de marketing estranha, mas considerando tudo que discuti neste texto, é relativamente inofensivo.

Isso não é pra dizer que são perfeitas, algumas músicas dos dois primeiros álbuns são passáveis, e algumas letras *caham* problemáticas. Ainda assim, é extremamente gratificante assistir um grupo liderado por mulheres causar tanto rebuliço no nosso mundinho heavy metal – ainda que elas precisem usar sainhas questionáveis para isso.

Augusto Pacífico

Augusto Pacífico

Nascido no leste de Minas Gerais e com o coração em Brasília. Ávido explorador das formas mais variadas de música, com preferência pelo lado lírico do heavy metal. Estuda psicologia há tempos demais e ainda tem muito pela frente. Apreciador de botecos gourmet e pocilgas cavernosas. Tudo que precisa é de uma cerveja na mão e uma boa companhia.

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